INSCRIÇÃO: 00060
 
CATEGORIA: RT
 
MODALIDADE: RT03
 
TÍTULO: Radiodrama Não Era Pra Ser: A Junção de Jornalismo e Dramatização no Meio Radiofônico
 
AUTORES: Vitória Maffei Dutra da Silva (Universidade do Sagrado Coração); Arthur Augusto Machado (Universidade do Sagrado Coração); Daniela Gaspar Silva (Universidade do Sagrado Coração); Marcelle Pereira Conte (Universidade do Sagrado Coração); Laura Martines Palhano (Universidade do Sagrado Coração); Vinicius Falcão de Souza (Universidade do Sagrado Coração); Daniela Pereira Bochembuzo (Universidade do Sagrado Coração)
 
PALAVRAS-CHAVE: Dramatização, Estupro, Ficção, Narrativa, Rádio
 
RESUMO
Este trabalho visa explicitar as dinâmicas de produção de radiodrama baseado na reportagem A história de Sofia: o cruel labirinto do estupro na favela, publicada pelo jornal El País Brasil e de autoria do jornalista Felipe Betim. O produto foi apresentado como trabalho final à disciplina de Redação de Jornalismo Radiofônico e adota os princípios da dramatização radiofônica para criar uma narrativa ficcional. O radiodrama em questão contou com pesquisa documental, bibliográfica e musical para transparecer a capacidade que o meio radiofônico tem de criar imagens nas mentes de quem o ouve. A criação traz à tona o contexto do estupro no Brasil, bem como realça a impunidade diante de um crime como esse. O principal objetivo, portanto, é evidenciar a questão do estupro no país e também resgatar a técnica e a natureza da dramatização radiofônica, muito comum na chamada Era de Ouro do Rádio.
 
INTRODUÇÃO
A invenção radiofônica surgiu no final do século XIX a partir das tecnologias de radiofrequência. Pesquisas e testes em torno da nova criação eram feitas concomitantemente em várias partes do mundo. Primeiramente, o rádio surgiu como uma técnica oriunda de tecnologias, para depois se tornar um meio de comunicação. Como tal, apresenta algumas características inerentes, como audiência ampla, heterogênea e anônima (FERRARETTO, 2001). No Brasil, as primeiras emissoras de rádio começaram a atuar na década de 20, como aponta Ferraretto (2001), que classifica as fases do rádio no país em seis: implantação, estruturação, apogeu, decadência, reestruturação e segmentação e redes via satélite. Dentre todas, a mais significativa foi a de apogeu, também chamada de a "Era de Ouro do rádio", que vai de 1940 até 1955, quando surge o meio televisivo. A fase de apogeu é caracterizada pela acirrada concorrência entre as emissoras, cada vez mais numerosas no país. Os investimentos em publicidade bem como a grade de programações também aumentaram consideravelmente. Neste contexto, o rádio viveria aquela que é considerada a sua época de ouro, caracterizada por uma programação voltada ao entretenimento, predominando programas de auditório, radionovelas e humorísticos. [...] O veículo adquire, desta forma, audiência massiva, tornando-se, no início dos anos 50, principalmente por meio da Nacional, a primeira expressão das indústrias culturais no Brasil. (FERRARETTO, 2001, p. 112-113). A Era de Ouro do rádio se tornou muito conhecida devido à presença das radionovelas, na qual as histórias eram dramatizadas. Referindo-se a esse tipo de programação, Calabre (2003, p. 01) diz que "[...] o rádio brasileiro lançou modas, revolucionou práticas cotidianas, venceu barreiras geográficas, inventou e consolidou gêneros de programas que se mantiveram como sucesso de audiência durante décadas". A produção de um programa de ficção baseado na dramatização é foco deste trabalho.
 
OBJETIVO
A dramatização no rádio se baseia na interpretação e uso da voz e no uso de efeitos sonoros e músicas. O objetivo de toda narrativa dramática é recriar ideias originais na mente do ouvinte. Tendo por base a reportagem A história de Sofia: o cruel labirinto do estupro na favela, escrita pelo jornalista Felipe Betim, para o jornal El País Brasil e publicada em junho de 2016, o radiodrama em questão busca promover uma reflexão social por meio da catarse presente na narrativa. Acredita-se, dentre os membros do grupo, que tal reflexão, bem como o impacto diante dos ouvintes, se tornam maior justamente pela história ser baseada na realidade de muitas famílias brasileiras. Ademais, após o meio televisivo ter se difundido entre a população, a partir de 1955, o rádio entrou em fase de decadência, e a dramatização radiofônica perdeu força. Diante disto, um dos objetivos específicos deste trabalho é produzir um radiodrama que realce a capacidade que o rádio tem de formar imagens, bem como evidencie suas principais características inerentes. E para que o presente produto promova uma reflexão social acerca do estupro e da impunidade em municípios brasileiros, por fim, objetiva-se utilizar as técnicas de roteirização, dramatização e linguagem radiofônica de forma a criar um diálogo mental com o ouvinte durante a narrativa ficcional.
 
JUSTIFICATIVA
O radiodrama produzido e descrito neste trabalho tem por base a reportagem A história de Sofia: o cruel labirinto do estupro na favela, escrita pelo jornalista Felipe Betim, para o jornal El País Brasil e publicada em junho de 2016. A escolha por retratar uma história com base em fatos reais se justifica pelo desejo do grupo em se aproximar ainda mais dos preceitos básicos do jornalismo, como, principalmente, o compromisso com a verdade. Isto pode ser possibilitado por uma característica peculiar ao rádio: a capacidade de formar imagens. Como é um meio “cego”, consegue estimular a imaginação do ouvinte para que ele transforme tudo o que ouviu em imagens, facilitando a compreensão e ressaltando outros pontos fortes do meio, como a particularização, que se refere à comunicação interpessoal entre emissor e ouvinte, e a penetração, já que o meio fala a milhões de pessoas, ao mesmo tempo e com custo reduzido. Segundo McLeish (2001): Ao contrário da televisão, em que as imagens são limitadas pelo tamanho da tela, as imagens do rádio são do tamanho que você quiser. Para o escritor de peças radiofônicas, é fácil nos envolver numa batalha entre duendes e gigantes, ou fazer a nossa espaçonave pousar num estranho e distante planeta. Criada por efeitos sonoros apropriados e apoiada pela música adequada, praticamente qualquer situação pode ser trazida ao ouvinte. (MCLEISH, 2001, p. 15). Diferentemente das artes visuais, onde o cenário é percebido diretamente, no rádio, o ouvinte é quem constrói em sua mente os cenários e a aparência dos personagens. Apesar de tantos qualidades, atualmente, no Brasil, poucas peças radiofônicas são veiculadas, tanto que apenas a rádio Cultura de São Paulo coloca no ar, esporadicamente, produtos que lembram esse gênero radiofônico. Magaly Prado (2006) atribui este fato a dois grandes motivos: a não existência de tecnologia para a produção de paisagens sonoras e a falta de espaço nas programações das emissoras para veiculação. A produção deste trabalho busca contrapor este pensamento e evidenciar a alta capacidade do rádio em produzir não apenas paisagens sonoras através de diferentes efeitos, mas também imagens mentais que, juntas, são capazes de criar uma narrativa rica, tanto em forma quanto em conteúdo, capaz de conquistar a atenção do ouvinte por vários minutos sem que ele deseje sintonizar em outra estação. Além disso, a escolha do tema abordado neste radiodrama, o estupro, justifica-se pelas estatísticas brasileiras que apontam que, no país, é mais fácil uma mulher com idade entre 14 e 44 anos ser estuprada do que ser vítima de algum tipo de câncer ou acidente, conforme estudo divulgado pelo Banco Mundial (A CADA..., c2016). Já o décimo Anuário Brasileiro de Segurança Pública (BOEHM, 2016), publicado no início de novembro de 2016, indica que mais de cinco pessoas são estupradas por hora no Brasil. E o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que apenas 10% dos casos de estupro chegam ao conhecimento da polícia (BUCHMÜLLER, 2016). Deste modo, busca-se neste trabalho, elucidar a exposição a qual as mulheres, de todas as faixas etárias, mas principalmente as adolescentes, estão expostas cotidianamente, inclusive dentro de seus próprios lares, suscitar a importância da denúncia dos abusos e chamar a atenção para o alto número de casos de impunidade no país (de acordo com levantamento feito pela Revista Istoé, somente cerca de 3% dos casos de estupro terminam com o acusado preso (BRANDALISE, 2016)).
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
Não era para ser é um radiodrama produzido como trabalho final apresentado à disciplina de Redação de Jornalismo Radiofônico, do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração, cujo principal intuito era criar uma peça radiofônica através do uso de técnicas de roteirização e interpretação, de modo que os personagens, juntamente a uma série cuidadosamente escolhida de efeitos sonoros, gerassem sentimentos, paisagens sonoras e imagens mentais nos ouvintes. Desta maneira, a decisão foi por utilizar a reportagem divulgada pelo jornal El País Brasil sobre o caso de uma menina estuprada por seu próprio padrasto, que permaneceu impune, como referência para um produto ficcional que evidenciasse a questão da impunidade, tão presente no cenário de violência brasileiro. Antes, no entanto, mostrou-se fundamental seguir percurso metodológico cuja etapa inicial envolveu pesquisa bibliográfica sobre as características do meio rádio, gêneros e formatos radiofônicos, a partir das contribuições dos pesquisadores Luiz Artur Ferraretto (2001), Lia Calabre (2016), Magaly Prado (2006), Eduardo Meditsch (2005), André Barbosa Filho (2009) e Robert McLeish (2001). De acordo com os estudos, o radiodrama está inserido no gênero entretenimento, que, como aponta Barbosa Filho (2009), tem o programa ficcional como um de seus formatos. Este, por sua vez, está dividido entre drama e humor. A estruturação do roteiro, seja de humor ou de drama, deve acontecer depois de decidido sob qual ângulo a historia acontecerá. A narrativa transmitida deve atingir o ouvinte e fazer com que ele reflita sobre a trama e a temática presente na dramatização. Se tais descrições, chamadas também de “sinalizadores” forem deficientes, o ouvinte irá ficar desorientado e poderá não seguir a narrativa. McLeish explica que “o enredo deve ser verossímil, os personagens, também; e o final deve apresentar alguma lógica, por mais incomum e original que seja, para que o ouvinte não se sinta enganado nem fique decepcionado.” (MCLEISH, 2001, p. 179). O autor lista os principais tópicos que devem ser levados em consideração para a produção de uma peça radiofônica. O primeiro tópico se refere a ideias básicas de enredo e forma. Pensar no público-alvo e na viabilidade técnica são requisitos importantes. O segundo tópico se refere à construção da história, que, segundo McLeish (2001), deve ser feita da seguinte maneira: primeiro, deve-se explicar a situação. Em seguida, introduzir um conflito. Depois, desenvolver uma ação para, enfim, resolver o conflito. Outro ponto importante citado pelo autor diz respeito ao cenário em que a história se passa bem como a caracterização dos personagens. O cenário e mais um ou dois personagens principais podem ser o tema principal que dá coesão a uma série de episódios – ou anúncios. É importante fazer uma boa pesquisa de época e lugar para manter a credibilidade perante aqueles ouvintes que reconhecem a situação específica da história. (MCLEISH, 2001, p. 182). Outros tópicos essenciais para a produção de um bom drama radiofônico são o diálogo, que deve evitar falas “indicadoras”, pois estas podem ser “mostradas” ao ouvinte por meio de outros recursos sonoros; o layout do script; os atores; a acústica; os efeitos sonoros; a música e as técnicas de produção. McLeish (2001, p. 181) descreve o diagrama de um enredo radiofônico e mostra a necessidade de estruturá-lo por meio de um enredo principal e diversos subenredos. Segundo essa perspectiva, a trama dramática deve ser desenvolvida por meio da “Introdução, cenário, contexto e caracterização”, que se desenrolam em cenas maiores; “Conflitos, eventos resultantes de personagens da situação”; “Ação emergente, complicação, suspense”; “Tensão máxima, crise e clímax”; “Declínio da ação, resolução”, e por fim, “Desfecho, reviravolta”. Realizada a pesquisa bibliográfica, seguiu-se para a pesquisa documental, para a análise de diferentes casos de estupro ocorridos no Brasil, bem como explorar o contexto do problema no país. Foram consultadas matérias das agências BBC Brasil, Agência Estado, Congresso Nacional, Istoé, El País Brasil, além do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. Avalia-se que as pesquisas bibliográfica e documental realizadas sobre o tema, de objetivo exploratório, foram preponderantes para que a adaptação da reportagem para um produto ficcional com uso de técnica de dramatização ocorresse de maneira detalhista e em sua plenitude, resultando em um trabalho de finalidade aplicada. Nessa etapa final, todos os integrantes da equipe buscaram interpretar não apenas a reportagem e demais casos pesquisados sobre violência sexual contra a mulher, mas principalmente o contexto social e histórico no qual a vítima geralmente está inserida. Desta forma, foi possível traçar um perfil tanto do estuprador quanto da vítima e sua família, o que contribuiu ricamente para a formação psicológica dos personagens do presente produto. Assim sendo, Não era para ser é uma obra ficcional que provoca emoção e suspense a cada nova cena, o que torna a trama envolvente. Todos os personagens tiveram seus nomes alterados, pois mesmo na reportagem eles já eram fictícios para preservar a identidade das vítimas, por uma questão de segurança. O roteiro foi elaborado com base no layout proposto por McLeish (2001) com o qual os alunos puderam ensaiar, gravar a narrativa e fazer os últimos ajustes editoriais, nas dependências do Laboratório de Rádio da Universidade do Sagrado Coração. Antes, porém, foram realizadas seleção de radioatores e radioatrizes, para que pudessem ser encontradas vozes que se ajustassem às descrições e falas dos personagens indicados no roteiro. A gravação, edição e pós-produção foram realizadas com o auxílio dos técnicos Alexsandro Costa e Leandro Zacarim. Todas as etapas do percurso metodológico, bem como a etapa monográfica, que culminou na elaboração deste paper, foram orientandas pela professora Ma. Daniela Pereira Bochembuzo, docente responsável pela disciplina de Redação de Jornalismo Radiofônico.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
O presente radiodrama foi baseado na reportagem A história de Sofia: o cruel labirinto do estupro na favela. O processo de criação do roteiro dividiu-se em duas partes. Primeiramente a aluna Daniela Gaspar fez a adaptação da reportagem para um texto único, no qual os personagens foram adequados de acordo com as sugestões dos demais integrantes do grupo. Em seguida, a aluna Vitória Maffei dividiu o texto em cenas e concedeu “voz” a todos os personagens, finalizando, assim, a primeira versão do roteiro, que foi alterado mais algumas vezes durante os ensaios. Todos os ajustes foram feitos objetivando conquistar a atenção do ouvinte do início ao fim da narrativa. Considerou-se ainda que O radiodrama, ainda que abstrato e irreal, é capaz de criar um mundo inteiro e completo em si mesmo, com o material sensorial de que dispõe – um mundo em si mesmo que não parece prejudicado ou dependente de suplementação por alguma coisa externa como o visual – o que se torna compreensível quando se o compara com uma transmissão externa ou uma reportagem. (MEDITSH, 2005, p. 63) Com base neste pensamento de Meditsh (2005), é possível afirmar que Não era para ser divide-se em duas grandes partes: pré e pós-estupro. No primeiro momento, o ouvinte pode ter contato com a personalidade de cada um dos personagens, o local onde a trama acontece e passa a desconfiar de alguns dos segredos que o protagonista, Pedro, esconde. A escolha de fazer do “vilão” o protagonista da narrativa se deve justamente ao desejo comum da equipe em evidenciar a personalidade fria que um estuprador possui. Após a ocorrência da violência sexual é quando a história de fato segue em direção ao clímax. Anna, enteada do protagonista, não fica calada ante ao abuso sofrido e conta tudo para sua mãe, Lúcia, esposa do protagonista. Nota-se, através das cenas com “pensamentos”, que mesmo nos momentos de maior tensão emocional Pedro mantém sua personalidade fria e dissimulada. A casa da família Santos, local onde se passa a maior parte da trama, é um sobrado de três cômodos da Favela Ferradura Mirim, localizado na cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Na história original o lar era numa favela do Rio de Janeiro. A mudança se deve ao desejo de propiciar proximidade com o ouvinte de modo que ele perceba que não é apenas em grandes cidades ou grandes favelas que o estupro está instalado, além de facilitar a interpretação, uma vez que se o cenário do Rio de Janeiro fosse mantido, os atores teriam que fazer uso do sotaque carioca. A convivência de todos os membros familiares, Pedro, Lúcia, Anna, Giovanna, Catharina e Marcos, é percebida como um compilado de pequenos atritos e discussões constantes, que sugere existir algo escondido nos pequenos conflitos apresentados. Por este motivo, a cena em que Lúcia, uma empregada doméstica, moradora da favela e mãe de quatro filhos, toma conhecimento da violência sofrida por sua filha mais velha é um dos momentos de maior carga emocional do radiodrama. A mãe se vê representada na menina, relembra de seu passado, de todos os abusos que havia sofrido, de todo o sofrimento durante o tempo que também teve que conviver com esse tipo de violência, e não consegue conceber que o mesmo havia ocorrido dentro de sua própria residência, ainda mais sendo o violentador seu próprio marido. Para imprimir dinamismo aos fatos, a narrativa faz uso de um desencadeamento concomitante de ações. Enquanto a mãe, perdida em meio a uma situação adversa que remete diretamente a seu passado, consola e tenta explicar para Anna um pouco de sua história, Pedro sai de casa, estabelece uma breve conversa com seu vizinho e logo em seguida passa a planejar uma maneira de não ter que pagar pelo crime que cometeu, agindo sempre com a calma de quem já passou por isso outras vezes. Ao fim da narrativa, o ouvinte é surpreendido ao se deparar com um desfecho não esperado, pois mesmo sendo denunciado por sua esposa, o homem consegue fugir e, munido de uma nova identidade, dá início a mais uma história que, muito possivelmente, terá um final triste. A última cena é um retrato da impunidade no país e busca suscitar no ouvinte um inconformismo com relação ao ocorrido. Conforme já foi exposto, o personagem principal de Não era para ser é Pedro, um pai de família nascido no Maranhão, morador da favela Ferradura Mirim e dono de uma personalidade quase que constantemente ríspida, especialmente com sua enteada, Anna. Gradativamente o personagem deixa evidente os pensamentos violentos e invasivos que possui e a forma meticulosa com a qual organiza suas ações. Lúcia é esposa de Pedro, e junto a ele possui três filhos, Giovanna e os gêmeos Catharina e Marcos. Anna é fruto de um dos relacionamentos anteriores de Lúcia. Por este motivo, nota-se desde as primeiras falas do personagem o jeito de menosprezo com o qual Pedro trata a enteada. Entre os filhos de Lúcia, as diferenças se acentuam naturalmente. Anna possui jeito calmo ao falar, é compreensiva e trata sempre sua mãe com carinho e atenção. Giovanna é diferente. Dentre todos os filhos, é a que mais gosta de provocar intrigas, tratando até mesmo sua própria mãe com desrespeito. Já os gêmeos Marcos e Catharina, por conta da pouca idade, passam a maior parte do tempo brincando ou correndo e possuem poucos diálogos na narrativa. Para ampliar os diálogos na história, foi realizada a adição de três personagens secundários que no roteiro foram designados como: Senhor Luiz, patrão de Lúcia, Senhor José, que interpreta o vizinho da família, e o delegado que atende mãe e filha para fazer a denúncia. A narração do radiodrama foi realizada em terceira pessoa, através da voz da aluna Isabela Lima. A escolha leva em conta o fato de as mulheres serem mais profundamente atingidas quando se fala no assunto estupro, além de poder ser considerada como uma ação de empoderamento, uma vez que a maioria das narrações é feita por vozes masculinas. Dessa maneira, a voz feminina, pontuada e sentimentalizada, busca aproximar emissor e receptor. A trilha sonora escolhida para caracterizar a trama logo no início pertence ao ritmo funk, cujo título é “Eu só quero é ser feliz”, já que o cenário é uma favela. O intuito é propiciar para o ouvinte a criação de paisagens sonoras que contribuam para sua inserção na narrativa. Houve uso de efeito sonoro para toda passagem de cena, evitando-se ser confundido com sons típicos de uma favela. Ademais, foram utilizados fundos musicais que atuam como indicadores do sentido da cena, como, por exemplo, o de suspense em momentos críticos. Considerando as falas dos atores, os efeitos e as trilhas sonoras, o radiodrama possui 27 minutos totais e um roteiro de 26 páginas.
 
CONSIDERAÇÕES
Através da descrição, de efeitos sonoros e até mesmo da entonação da voz, o rádio possui a capacidade de transmitir sentimentos e, desta forma, provocar a reflexão do ouvinte. Levando em conta essa forte característica do meio radiofônico, a reportagem A história de Sofia: o cruel labirinto do estupro na favela, do jornalista Felipe Betim, foi escolhida para adaptação do radiodrama Não era para ser, sob o desejo de abordar uma narrativa baseada em fatos reais e de grande relevância, já que os números dos casos de estupro no Brasil são alarmantes. O desenvolvimento tanto da parte teórica, composta pelo paper e pelo roteiro, quanto da parte prática, que abarca a totalidade do radiodrama, culminaram na concretização de um produto com uma temática atual fez a equipe acreditar que, mesmo na contemporaneidade, é possível tratar de assuntos pesados de uma maneira lúdica e clara. A despeito dos momentos de maior cansaço intelectual e físico, típicos do fim do semestre, todos os integrantes do grupo participaram dos processos de adaptação, encenação e edição do radiodrama e contribuíram com ideias complementares no decorrer de toda a atividade. Desta maneira, o respeito e o comprometimento entre todos podem ser considerados como importantes contribuintes para a finalização de Não era para ser. Por fim, acreditamos que conseguimos elucidar a importância da permanência da dramatização no meio radiofônico justamente por trabalhar as diversas possibilidades que o rádio dispõe, através da voz e demais efeitos sonoros. A escolha de uma reportagem, que é um gênero textual tipicamente jornalístico, como base de toda a adaptação foi fundamental para a formação de um radiodrama cuja uma abordagem se próxima, majoritariamente, da realidade. Assim sendo, os integrantes da equipe avaliam que todos os nossos objetivos foram cumpridos, mas também o sentimento de satisfação ao ouvir um produto que demandou tanto de nossa dedicação e esforço finalizado de maneira positiva.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
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“A CADA 11 segundos uma mulher é estuprada no Brasil”, alerta Simone Tebet. Agência Senado. Brasília, 30 Mai. 2016. Disponível em: . Acesso em 28 Nov, 2016.

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