INSCRIÇÃO: 00402
 
CATEGORIA: JO
 
MODALIDADE: JO15
 
TÍTULO: Manifesto de Bauru: a carta que mudou os rumos da luta antimanicomial no país
 
AUTORES: Jéssica Caroline de Oliveira Pirazza (Universidade do Sagrado Coração); EDNAN GOMES DE SOUZA (Universidade do Sagrado Coração); Flávia Eloísa Izidoro (Universidade do Sagrado Coração); Renata Alves Ribeiro (Universidade do Sagrado Coração); Vitória Augusto Palmejani (Universidade do Sagrado Coração); Mayra Fernanda Ferreira (Universidade do Sagrado Coração); DANIELA PEREIRA BOCHEMBUZO (Universidade do Sagrado Coração); DANIELA PEREIRA BOCHEMBUZO (Universidade do Sagrado Coração)
 
PALAVRAS-CHAVE: Rádio, Documentário, Jornalismo, Luta Antimanicomial, Manifesto de Bauru
 
RESUMO
Este trabalho aborda as etapas de pesquisa, produção e execução do radiodocumentário Manifesto de Bauru: a carta que mudou os rumos da luta antimanicomial no país, que foi desenvolvido com base no documento que oficializou o movimento da luta antimanicomial no Brasil. Realizado como produto final da disciplina de Laboratório de Jornalismo Radiofônico II, do curso de Jornalismo da Universidade Sagrado Coração, o produto tem como objetivo informar e reconstituir, antecedentes e consequências, da ação registrada em Bauru – SP, em 1987, pela extinção dos hospitais psiquiátricos e reivindicação por mudanças no tratamento a doentes mentais no país. Para reconstruir essa história, o trabalho envolveu pesquisa documental, de campo e bibliográfica, permitindo a elaboração de um produto radiofônico que reflete a importância local e, principalmente nacional, deste manifesto.
 
INTRODUÇÃO
Em 1987, os participantes do II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, reunidos em Bauru - SP, redigiram e aprovaram o que viria a ser o marco oficial da luta antimanicomial brasileira. Originalmente chamado “Carta de Bauru”, e conhecido entre os militantes como ‘Manifesto de Bauru”, o documento defendia o fim dos manicômios no país. Para eles o manicômio era visto como “[...]um local de residência [...] onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por um considerável período de tempo, levam uma vida de fachada e formalmente administrada” (GOFFMAN, 1974, p.11). O contexto histórico que levou à elaboração desse documento envolveu esferas sociais, principalmente política e acadêmica. Com o golpe militar de 1964, as repressões e pessoas que não se enquadravam nos padrões de moral vigentes aumentaram muito. E indivíduos com distúrbios de ordem mental não escaparam dessa regra. O número de manicômios cresceu e a forma desumana com que os internos eram tratados, na maior parte desses locais, ficou registrada na história através de documentos e depoimentos de pacientes e trabalhadores. Após o “Manifesto de Bauru”, o movimento antimanicomial se intensificou no país, pois não há prazo para os manicômios sejam substituídos por novos modelos de tratamento. E muito embora tenha sua relevância reconhecida por muitos estudiosos e militantes engajados na luta antimanicomial, o documento permanece desconhecido para muitos bauruenses, o que motivou a preocupação em resgatá-lo e difundi-lo em um produto radiofônico, pois, esse meio tem a vantagem de falar e alcançar milhões de pessoas. (BARBOSA FILHO, 2003). A escolha pelo formato considerou que o radiodocumentário possibilita “[...] tornar o tema mais interessante e mais vivo, a envolver um maior número de vozes, de pessoas e maior amplitude. É preciso entreter e ao mesmo tempo informar, esclarecer e estimular novas ideias e interesses” (MCLEISH, 2001, p.192).
 
OBJETIVO
Um documentário apresenta apenas fatos baseados em evidências documentadas: registros escritos, fontes que podem ser citadas, entrevistas atuais e outros itens do gênero (MCLEISH, 2001). Diante deste panorama, o objetivo geral dos idealizadores do projeto foi desenvolver um produto radiofônico documental, de caráter informativo, sobre o movimento da Luta Antimanicomial Brasileira que foi oficializado em Bauru, a partir de uma carta aberta e que se espalhou por todo o país com sua divulgação. Para tanto, os objetivos específicos envolveram: utilizar como base narrativa do roteiro o próprio “Manifesto de Bauru” que foi redigido e aprovado durante o congresso trazendo as reivindicações dos manifestantes; realizar uma reconstituição sensorial (MCLEISH, 2001) do dia em que ocorreu a manifestação, bem como de seus antecedentes e consequências; pesquisar, documentar e interpretar dados sobre o assunto tratado por meio de entrevistas com participantes, organizadores do evento, especialistas consultados e ex-internos de manicômios. Além disso, os idealizadores do projeto visaram contribuir para a documentação da temática, fomentando a discussão e a reflexão sobre a forma de tratamento das pessoas com doenças mentais no Brasil.
 
JUSTIFICATIVA
A temática do radiodocumentário ampara-se na decisão de abordar a luta antimanicomial, com foco principal no ato público registrado no ano de 1987 e que ficou reconhecido por militantes e profissionais da saúde como o marco oficial desse movimento social no Brasil. O entendimento veio de que o tema é relevante, tendo em vista que o movimento pelo fim dos manicômios representa uma mobilização social legítima em torno de direitos humanos, tema caro ao jornalismo e à sociedade, pois pleiteia o respeito às diferenças, à dignidade humana, à saúde e envolve pessoas historicamente marginalizadas: os doentes mentais. De acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde (2001) sobre o tema, os transtornos mentais e as doenças neurológicas afetam cerca de 400 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, existem 63 mil leitos psiquiátricos em hospitais. Desses, apenas 8% estão em hospitais gerais. O restante está localizado em estabelecimentos psiquiátricos especializados. Segundo Paulo Amarante (2006), foi após o golpe militar de 1964 que o número de leitos nos manicômios do Brasil aumentou drasticamente: [...] o setor saúde viveu o mais radical processo de privatização do mundo. A psiquiatria foi a área mais explorada e preferida pelas empresas privadas, na medida em que a falta de direitos dos usuários, somada à baixa exigência de qualidade no setor, facilitava a construção ou transformação de velhos galpões em "enfermarias". A "indústria da loucura", como ficou conhecida, fez o número de leitos saltar de 3 mil para quase 56 mil, ao mesmo tempo que os investimentos no setor público começavam a diminuir. (AMARANTE, 2006). Neste período os hospitais psiquiátricos funcionavam como uma espécie de depósito humano para pessoas consideradas fora do padrão da época como dependentes químicos, homossexuais, mães solteiras, grávidas, mendigos e pessoas com problemas mentais. E foi no contexto de banalização dos manicômios, que os profissionais da área da saúde mental começaram a se interessar e a buscar novos caminhos para a forma de tratamento desses pacientes. Assim, a escolha dessa temática, sob o recorte do “Manifesto de Bauru”, foi pensada também como uma estratégia de trazer à tona um assunto importante e de grande relevância social para sociedade, mas de conhecimento de poucas pessoas, principalmente, da cidade que foi o berço do movimento. Isto se deve, em grande parte, à ausência de produtos que discutam o tema, não somente no meio radiofônico. Essa lacuna foi percebida pelos idealizadores durante pesquisa exploratória realizada entre os meses de abril e maio de 2016, que envolveu a consulta a obras bibliográficas, documentais e fílmicas, a respeito da luta antimanicomial. O resultado da pesquisa exploratória comprovou a relevância e pertinência da abordagem do tema e reforçou a crença sobre a necessidade de abordagem aprofundada sobre o assunto, de forma a dar conta de sua singularidade e complexa contextualização, por meio de um documentário. A escolha do formato foi vista como a mais interessante ao tema, pois, o documentário radiofônico tem como função aprofundar determinado assunto ou fato, sendo construído a partir de uma pesquisa documental, medição dos fatos in loco, comentários de especialistas e de envolvidos no acontecimento, e desenvolve uma investigação sobre um fato ou conjunto de fatos reais, oportunos e de interesse atual. (BARBOSA FILHO, 2003, p.102). Além disso, o meio rádio foi escolhido por conta de sua linguagem simples, clara e estimulante, sendo entendido como o suporte mais adequado ao formato escolhido, pois, o rádio é “um meio cego, mas que pode estimular a imaginação, de modo que logo ao ouvir a voz do locutor o ouvinte tente visualizar o que ouve, criando na mente a figura do dono da voz”. (MCLEISH, 2001, p.15).
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
O produto radiofônico Manifesto de Bauru: a carta que mudou os rumos da luta antimanicomial do país foi idealizado e produzido por alunos do 5° semestre do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração, como produto final da disciplina de Laboratório de Jornalismo Radiofônico II. Tendo em vista a importância da luta antimanicomial no Brasil, resgatar seu marco histórico por meio de um radiodocumentário foi a maneira encontrada para retomar as discussões e reflexões sobre o tema, mantendo a sociedade vigilante e crítica sobre processos, atendimentos e políticas públicas que envolvam as pessoas com doenças mentais. Assim, entendeu-se que o processo de produção deste documentário somente seria possível se iniciado por meio de pesquisa bibliográfica sobre as temáticas relacionadas ao produto, como a história do rádio, as características do rádio, a linguagem radiofônica e a produção de radiodocumentário, a partir de contribuições de autores como Ferraretto (2014) e McLeish (2001). A importância da pesquisa bibliográfica foi ratificada por meio da visão consensual dos autores citados em relação à complexidade do formato radiodocumentário. Ferraretto, por exemplo, avalia que a produção desse formato exige “[...] alto nível de elaboração, conteúdo e formas combinados de maneira a garantir uma atenção quase constante por parte do ouvinte” (FERRARETTO, 2014, p. 225). Nesse processo, não se pode perder de vista que o “objetivo fundamental é informar, mostrar uma história ou situação sempre se baseando na reportagem honesta e equilibrada” (MCLEISH, 2001, p. 191). Para tanto, “[...] o repórter, além de traduzir, deve confrontar as diferentes perspectivas e selecionar fatos e versões que permitam ao receptor orientar-se diante da realidade” (LAGE, 2009, p. 23). Tais reflexões foram complementadas com as percepções de Erbolato (1985) a respeito das recomendações práticas sobre as técnicas de apuração e redação jornalística. Além dessas obras, a pesquisa bibliográfica foi estendida com a intenção de entender a problemática sobre os manicômios e envolveram a leitura dos livros “Manicômios, Prisões e Conventos”, de Erving Goffman (1974) e o livro-reportagem “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex (2013). Artigos científicos das áreas de Psicologia, História e Ciências Sociais também serviram de base para o entendimento do assunto e apontamento de itens a serem explorados no produto. Como parte da ampliação quantitativa e qualitativa de informações, parte da equipe idealizadora do projeto realizou pesquisas documentais nos jornais da época, por meio do Núcleo de Pesquisa e História (NUPHIS), órgão da Universidade do Sagrado Coração. Um dos veículos consultados foi “Diário de Bauru”, extinto jornal impresso que circulava na cidade e região, e que realizou a cobertura do II Congresso de Trabalhadores em Saúde Mental, realizado na cidade de Bauru em 1987 e por meio do qual foi idealizada e aprovada a “Carta de Bauru”. As notícias obtidas foram cruzadas com as informações noticiadas por outro veículo impresso do município, o “Jornal da Cidade”, cujo acervo foi visitado pela equipe do documentário. O conjunto de dados documentais permitiu a ampliação da exploração sobre o tema e questões correlatas, como os contextos local e nacional da época, bem como permitiram a identificação de algumas fontes participantes do congresso, que seriam contatadas na etapa da pesquisa de campo para coleta de ilustrações sonoras, pois “[...] o princípio do documentário é, sempre que possível, voltar às fontes, pessoas envolvidas, testemunhas oculares, aos documentos originais e assim por diante”. (MCLEISH, 2001, p. 193). Nesse sentido, as entrevistas visaram agregar informações e corroborar com aspectos ligados aos antecedentes e consequências do “Manifesto de Bauru”. Além disso, o fator memória enriquece o material, fornecendo detalhes importantes ao produto, tendo em vista que o fator humano é o que mais pesa no documentário, já que: Embora estatísticas e fatos históricos sejam importantes, o elemento crucial é o ser humano – deve-se, portanto, realçar a motivação e ajudar o ouvinte a entender por que certas decisões foram tomadas e o que faz as pessoas se comportarem de determinada maneira. (MCLEISH, 2001, p. 192). A percepção de McLeish é corroborada por Erbolato (1985), para quem um repórter nunca deve perder de vista o interesse humano durante sua atuação a campo. “A notícia revestida de interesse humano, que mostre as dificuldades, os prazeres e a história de cada pessoa e que tenha lições a oferecer ao próximo, é a que mais leitores encontra” (supra cit., p. 159). Ao reunir todos estes conteúdos, os dados foram analisados e compilados, conforme a técnica de produção de radiodocumentário de Ferraretto (2014), sendo possível produzir o roteiro com base nos conceitos apontados anteriormente neste trabalho e fazendo referência à estrutura apresentada pelo autor Meditsch (1999). O roteiro, que ficou sob responsabilidade de dois integrantes do grupo de idealizadores, é dividido em seis blocos e foi construindo tendo como base trechos do documento “Manifesto de Bauru”, colocados de forma não sequencial, a fim de facilitar o entendimento do ouvinte. Com o auxílio de um microfone, a locução do produto foi gravada de uma única vez. Na sequência, duas pessoas foram convidadas: uma gravou as cortinas de divisão temática do produto e a outra foi o responsável por dar a voz de uma manifestante aos trechos do documento “Manifesto de Bauru”. A gravação ocorreu no Laboratório Radiofônico da Universidade do Sagrado Coração, no dia 19 de maio de 2016. A edição foi no mesmo local, nos dias 20 e 23 de novembro de 2016, com o auxílio de um dos técnicos responsáveis pelo laboratório e a orientação de um dos alunos idealizadores, para realização de cortes, introdução de efeitos sonoros, alguns deles artesanais, para proporcionar a criação de cenários sonoros, trechos de manifestação contra a luta antimanicomial, uma de 1987 e outra de 2016. Por fim, houve reedição e correção dos áudios, que foram revisados e reparados para adequação do produto de acordo com os apontamentos e correções da orientadora do projeto.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
As etapas metodológicas deste produto tiveram como objetivo atender às recomendações sobre planejamento de radiodocumentário de McLeish (2001) e Ferraretto (2014) e que se iniciam com a elaboração de um briefing, norteado pelas questões “Aonde quero chegar?” e “O quero deixar para o ouvinte”. Com base nessas questões formuladas por McLeish (op. cit.) e seguido de planejamento composto por título provisório, objetivo, duração prevista, conteúdo (tema e subtemas), pontos principais a serem abordados, fontes de entrevistas e fontes de referência. Realizada essa etapa, partiu-se para o segundo passo, que, segundo Ferraretto (2014), envolve as pesquisas bibliográfica, documental e entrevistas. A partir dessa exploração, realizou-se o terceiro passo, que, para o autor, deve envolver o tratamento monográfico, a valoração dos elementos e, por fim, a definição de subtemas. Por fim, como quarto passo, a definição dos parâmetros de conteúdo e forma (decisões sobre estrutura narrativa e estética) e a elaboração do roteiro. As etapas percorridas permitiram a elaboração de um radiodocumentário com duração total de quarenta e seis minutos e cinquenta e seis segundos e do qual participaram sete fontes de sonoras, sendo elas: especialistas do tema como Osvaldo Gradella Jr. (Professor de Psicologia na UNESP) e Sandra Elena Sposito (Conselheira e coordenadora da comissão gestora da subsede do Centro Regional de Psicologia); ex-pacientes de hospitais psiquiátricos como Fátima de Lourdes de Lima e Cleuza da Palma Silva, e profissionais que participaram do II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental como Celso Zonta (organizador do congresso), Roberto Tykanore (organizador do congresso), Vera Lúcia de Paula Rodrigues, Darlene Tendolo e Rosângela Barrenha. Suas participações foram importantes para enriquecer, analisar e explorar este tema que não possui quantidade relevante de material disponível para a pesquisa e entendimento. O roteiro foi alicerçado em trechos do “Manifesto de Bauru”, que guia a narrativa e é intercalado por sonoras e ilustrações sonoras sobre informações e lembranças do evento e posições pessoais sobre este tema tão relevante socialmente, a Luta Antimanicomial. O produto é dividido em seis blocos: Sábado, 5 de dezembro de 1987 – o dia da manifestação popular; Antecedentes – com informações sobre denúncias contra hospitais e o início da luta; Lembranças de uma ex-interna – em que conhecemos as dores de uma ex paciente de manicômios; O congresso; Depois do congresso; As mudanças; Quarta-feira, 18 de Maio de 2016 – o dia da manifestação popular em prol do Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Assim, através da oralidade e da sonoplastia, entendeu-se como pertinente utilizar no roteiro descrições detalhadas de lugares típicos de Bauru, como a Praça Rui Barbosa e o Calçadão da Batista de Carvalho, para estimular a criação de imagens mentais, reforçar o regionalismo e proximidade do cenário com o ouvinte. Como explica Gisela Ortriwano ao afirmar que: O rádio envolve o ouvinte, fazendo-o participar por meio da criação de um “diálogo mental” com o emissor. Ao mesmo tempo, desperta a imaginação através da emocionalidade das palavras e dos recursos de sonoplastia, permitindo que as mensagens tenham nuances individuais, de acordo com as expectativas de cada um. (1985, p. 80) Em momentos específicos de sonoras com significados importantes, o silêncio foi utilizado, segundo Ferraretto (2014, p. 34), como estratégia para enfatizar falas ou informações, visto que este “potencializa a expressão, a dramaticidade e a polissemia da mensagem radiofônica”. As narrações da história do radiodocumentário radiofônico foram feitas por uma locutora feminina, predominante no produto, e um locutor masculino, que lê os excertos referentes a parágrafos não sequenciais do manifesto. Uma terceira locução, também masculina, marca a divisão dos blocos, tendo em vista a necessidade de situar o ouvinte espacial e temporalmente na narrativa. A segunda voz masculina foi utilizada para a gravação da ficha técnica. A escolha de suas vozes masculinas se deu pela equipe de idealizadores para que elas se contrapusessem à voz feminina que é a responsável por guiar o ouvinte nas histórias e subtemas do radiodocumentário. No radiodocumentário, em momentos específicos de sonoras com significativas dos personagens entrevistados, o silêncio foi utilizado, segundo Ferraretto (2014, p. 34), como estratégia para enfatizar falas ou informações, visto que este “potencializa a expressão, a dramaticidade e a polissemia da mensagem radiofônica”. O produto ainda conta ainda com ilustrações sonoras para situar o ouvinte nos ambientes, tentando levar a imaginação aos locais dos acontecimentos que são narrados, já que “[...] a razão de se usar sons ao vivo é ajudar a dar o clima apropriado”. (MCLEISH, 2001, p.193). Sonoras do dia da manifestação de 1987 foram usadas, captadas de um vídeo encontrado na internet por um dos integrantes do grupo. Ilustrações de outra Manifestação em prol do tema que ocorreu na cidade de Bauru, no dia 18 de maio de 2016 – Dia Nacional da Luta Antimanicomial –, também foram usadas com a gravação feita in loco por parte dos idealizadores do radiodocumentário. Há também o som de máquina de escrever na divisão de cada bloco do produto, que foi escolhido por remeter a um objeto por ser usado no passado, dando a ideia de que o radiodocumentário escreve a história do Manifesto de Bauru. Além disso, nos momentos que os parágrafos desse documento são narrados – com efeito de megafone, por se tratar de uma passeata –, há um som de chuva ao fundo, já que chovia no dia da manifestação pública, segundo a apuração feita com base nos jornais da época e nas entrevistas coletadas. Um radiodocumentário é “uma abordagem mais autoral, ou seja, traz mais do olhar pessoal do jornalista sobre o fato” (SILVA E RANGEL 2011, p.4). Tendo em vista esse contexto e por se tratar de um produto feito dentro do ambiente acadêmico, em caráter experimental, e como uma forma de ruptura aos padrões estabelecidos, os idealizados decidiram por não incluir durante a narração da locutora feminina nenhum background ou BG. Logo após a primeira audição do público, composto por colegas de sala e professora orientadora, a escolha se mostrou acertada já que, segundo algumas pessoas que compuseram a audiência, o BG não faz falta já que a história se mostrava mais interessante. Outro ponto foi com que os ouvintes ficassem atentos a condução dos fatos feito pela narradora principal. Vale ressaltar que todo o processo de produção do produto radiofônico foi pensado para integrar o ouvinte sobre a Luta Antimanicomial de uma forma didática, sem perder a essência da informação e a necessária reflexão sobre o tema.
 
CONSIDERAÇÕES
A realização do radiodocumentário Manifesto de Bauru: a carta que mudou o rumo da luta antimanicomial no país, propiciou aos idealizadores do projeto a experiência de praticar o radiojornalismo social de um fato que acontece regionalmente, mas com proporções e impactos nacionais. Com a experiência de produzir um radiodocumentário sobre a Luta Antimanicomial, o grupo ratificou a crença inicial de relevância do tema, entendendo que a abordagem da “Carta de Bauru”, que ocorreu na cidade há 29 anos, permite atribuir-lhe notoriedade e importância. Os alunos ainda puderam ver de perto que o caminho para o fim dos manicômios e a mudança no tratamento aos doentes mentais é uma constante luta, que requer humanização e políticas públicas. Como estudantes, conversar com pacientes e trabalhadores de saúde mental fez com que a tarefa de jornalista, como agente sócio-histórico, fosse alcançada e retratada no radiodocumentário de maneira humanizada e crítica. Depois desse produto, a Luta Antimanicomial se tornou uma luta que os idealizadores acabaram por incluir em suas vidas.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
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ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração, 2013.

ERBOLATO, Mário. Técnicas de codificação em Jornalismo. São Paulo: Perspectiva, 1985.

FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Editora Sagra Luzzatto, 2001.

_____________. Rádio: teoria e prática. São Paulo: Summus Editorial, 2014.

GIL. Antônio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. São Paulo: Atlas, 2010.

GOFFMAN, Ervirg. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2009.

MCLEISH, Robert. Produção de rádio: um guia abrangente de produção radiofônica. São Paulo: Summus, 2001.

MCLEISH, Robert. Produção de rádio: um guia abrangente de produção radiofônica. São Paulo: Summus, 1999.

OMS (Organização Mundial da Saúde). As burden of mental disorder looms large, countries report lack of mental health programmes. Press release WHO/18. Genebra: WHO, 2001.

RANGEL, P., et al. Reportagens especiais, documentários e séries de reportagens - profundidade nas ondas do rádio. In: MOREIRA, S. V. (Org.). 70 anos de radiojornalismo no Brasil 1941 - 2011. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2011.