INSCRIÇÃO: 00597
 
CATEGORIA: CA
 
MODALIDADE: CA07
 
TÍTULO: Descobrindo Olga: uma jornada para a autoaceitação
 
AUTORES: Júlia Martins Pinheiro Da Silveira (Universidade do Sagrado Coração); Erica Cristina Franzon (Universidade do Sagrado Coração); Bruna Pessoa Sampaio (Universidade do Sagrado Coração); Bárbara Silva Ribeiro (Universidade do Sagrado Coração)
 
PALAVRAS-CHAVE: Fotografia em movimento, Fotografia expandida, Novas narrativas, Identidade de gênero, Transexualidade
 
RESUMO
Descobrindo Olga é uma narrativa audiovisual desenvolvida na disciplina de Fotojornalismo, do curso de Jornalismo, da Universidade do Sagrado Coração, Bauru/SP. A proposta foi criada por meio da interação de técnicas de som, imagem e vídeo, obtendo como resultado final a produção de uma fotografia em movimento entrecruzada com vídeo e áudio. O produto conta a história de uma transexual de 22 anos e as dificuldades que enfrentou ao longo da vida, como o preconceito e a autoaceitação. Buscou-se mostrar detalhes da rotina de Olga, que se chamava Caio, em seu contexto social. Na adolescência, Caio escrevia cartas sobre sua identidade de gênero. Na narrativa, trechos destas são narrados por Olga e o espectador é convidado a descobrir e a conhecer a sua história. Pretende-se, com a discussão sobre o tema, levar o público a refletir sobre os tabus que existem em relação à transexualidade.
 
INTRODUÇÃO
“Descobrindo Olga” narra, por meio de imagens, sons e vídeos, cenas da vida de uma adolescente transexual que vivencia o processo de autoaceitação de sua identidade de gênero. A identidade de gênero é como a pessoa se reconhece dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente. A orientação sexual se refere às formas de relacionamentos entre as pessoas, ou seja, o gênero pelo qual o outro se sente atraído sexualmente. O termo gênero foi utilizado pela primeira vez pelo psicólogo John Money (1921-2006) para expressar uma diferença social e psicológica entre homens e mulheres. Portanto, a identidade de gênero é como a pessoa se identifica. Há quem se identifique como homem, como mulher, como ambos ou como nenhum dos dois gêneros. Busca-se, por meio deste trabalho, colocar Olga como protagonista de uma narrativa audiovisual, mesclando linguagens para produzir novos sentidos e formas de fruição sobre o tema, Santaella (2016) em “Novas formas do audiovisual” discute a expansão das antigas margens da mídia e de suas linguagens. “Descobrindo Olga” localiza-se nessas fronteiras borradas, que coloca a fotografia fixa, em movimento, como fez o cinema, mas não para produzir uma narrativa cinematográfica, mas para discutir novas possibilidades de narrativas com a fotografia aliada a outras linguagens. O produto, assim resultante, traz a discussão de um tema principal, a transexualidade, como também abre uma perspectiva de discussão sobre imagem, som e vídeo em “um contexto de infinitas possibilidades na criação e uso do verbo-som-imagem”. (SANTAELLA, 2016). Nesse ambiente inventivo, em que se insere a fotografia expandida, uma das diferentes formas de fotografar e expressar-se através da fotografia, essa narrativa busca uma alternativa de expressão, derrubando a tradição visual fotográfica, tantas vezes repetida ao longo da história (FERNANDES JÚNIOR, 2006).
 
OBJETIVO
OBJETIVO GERAL Este trabalho tem como objetivo central apresentar um produto de fotografia em movimento sobre um episódio real da vida de Olga, uma transexual de 22 anos, que se chamava Caio. Na narrativa Olga representa o momento em que, quando era Caio, escrevia cartas para Olga, que ainda não era totalmente aceita, falando sobre seus sentimentos em relação à sua condição de gênero. O processo de autoaceitação de como Caio foi se descobrindo Olga, os sentimentos envolvidos, os detalhes íntimos de seu cotidiano, a casa, as roupas, sapatos, objetos pessoais vão se revelando na narrativa até a completa aceitação. As imagens, o som, os vídeos tentam reconstruir e contar essa experiência na vida de Olga. Desse modo, por meio da sequência de imagens em movimento, em especial a fotografia, o espectador tem a chance de conhecer aos pouco a história da protagonista. Por meio de sua fala, Olga revela os principais sentimentos envolvidos neste episódio da sua vida. A ideia é que a narrativa possa sensibilizar o espectador, levando-o a se conectar com a experiência de Olga, por meio de detalhes visuais e da música, escolhida pela personagem e que tem grande significado na história. OBJETIVOS ESPECÍFICOS •Dar visibilidade ao tema a transexualidade a partir de um produto de fotografia em movimento; •Abordar o tema da transexualidade com ética, sensibilidade e respeito; •Criar possibilidades estéticas e poéticas por meio de uma narrativa que dialoga com a fotografia, o áudio e o vídeo.
 
JUSTIFICATIVA
Transgênero ou transexual é o individuo que não se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer. A pessoa transexual tem a missão de descobrir-se diariamente enquanto enfrenta preconceitos e a falta de oportunidades na busca de emprego. Existem questões psicológicas, familiares e sociais que fazem com que muitas pessoas transexuais não se aceitem. Identidade de gênero é como a pessoa se reconhece dentro dos padrões de gênero, como ela se sente por dentro. Quando a cabeça de uma pessoa transexual entende que esta presa a um corpo que não a pertence, torna-se difícil encarar a si mesmo e a sociedade. De acordo com a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), o Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais. Relatar o cotidiano de uma pessoa transexual tendo como apelo questões sociais e ideológicas, mostra que pessoas transexuais merecem respeito, merecem ser amadas e se amar. “Descobrindo Olga: uma jornada para a autoaceitação” foi idealizado com a intenção de humanizar pessoas que são objetificadas e/ou estão à margem da sociedade. Acompanhar a vida de uma mulher transexual nos faz observar sua luta diária, na qual tentam se integrar ao mundo, tentam ser pessoas “normais”. Este trabalho de fotografia em movimento foi a maneira na qual conseguimos dar voz a essas pessoas, mostrar como elas podem se descobrir, se amar e serem felizes.
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
Na disciplina de Fotojornalismo, alocada no quarto semestre do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração, nos foi dada a proposta de desenvolver um produto midiático com um tema relevante e que colocasse em diálogo a fotografia e outras linguagens. O desafio de mesclar imagem, som e vídeo, exigiu a busca por conhecimentos além da disciplina, como a edição de vídeos para se fazer a montagem do produto neste tipo específico de conteúdo. Neste aspecto, notamos do ponto de vista teórico e prático que as fronteiras entre as disciplinas e áreas estão realmente “borradas”. Após buscar algumas referências de produtos com essa característica, em especial as narrativas audiovisuais desenvolvidas pela Magnum In Motion (inmotion.magnumphotos.com), chegamos à decisão de qual seria o tema a ser abordado na fotografia em movimento. A partir da escolha do tema, definimos o dia e o local para começar a coleta do material. A decisão por contar um episódio real da vida de Olga, em seu ambiente diário, ajudou a construir a identidade do projeto, uma vez que, para contextualizar a história em questão, o ambiente possui grande importância. É o espaço íntimo, onde a personagem se sente à vontade e guarda afetos. Além da captação de imagens, optamos por coletar sonoras nas quais a personagem fazia a leitura de cartas que a ajudaram a construir sua identidade e autoestima. Antes de captar as imagens, o grupo se reuniu e decidiu um cronograma a ser seguido na hora da captação e também na pós-produção. Realizamos um storyboard com todas as informações a serem colocadas ao longo do vídeo para que o produto final ficasse do modo como desejávamos. De acordo com Field (2016, p.2), a estrutura é o que sustenta a história no lugar. É o relacionamento entre essas partes que unifica o roteiro, o todo. Tendo isso em mente, a criação de uma sequência para o material foi crucial durante a produção do trabalho de captação de imagens, áudio e vídeo. Optamos por utilizar o conceito de plot point (ponto de virada) proposto por Field (2016) para que a narrativa se mantivesse fluida e objetiva. Devidamente preparadas com os equipamentos (Câmera Canon EOS Rebel T3i, lentes Canon 18-55mm e Canon 50mm) comparecemos até a casa da personagem e captamos cerca de 2300 imagens, além de pequenos trechos em vídeo que complementaram o material. Utilizando técnicas variadas de disparo – trabalhando com abertura de diafragma e também velocidade do obturador – e diferentes planos de enquadramento, foi possível obter o resultado esperado e transmitir a mensagem em questão. Em outro momento, realizamos a captura do material em áudio no estúdio de rádio da Universidade do Sagrado Coração, para que se obtivesse a melhor qualidade sonora possível. A faixa escolhida para acompanhar as imagens foi a música da cantora Sia, chamada “Alive”. A justificativa por trás da escolha se baseia, principalmente, na letra e na mensagem da música em si. Podemos perceber uma conexão direta com a vivência da personagem no decorrer dos versos, como, por exemplo: Encontrei um consolo no lugar mais estranho / Bem no fundo de minha mente / Vi a minha vida num rosto de uma estranha / E era o meu; Ainda estou respirando / Estou viva. Para a edição das imagens, utilizamos o software de edição de fotos (Adobe Photoshop CC), onde estas receberam o filtro P&B (preto & branco). A escolha por este tratamento se dá pois este recurso, em especial no fotojornalismo, confere emoção à figura retratada, estando te acordo, portanto, com a mensagem que desejaríamos passar. Para o material em vídeo, utilizamos um software de edição de vídeo (Adobe Premiere CC) e exportamos em arquivo no formato MPEG4, com o codec H.264, mais aceito em televisores smart e sites de vídeo como o YouTube. O trabalho foi feito a partir de fotografia digital visando transmitir, por meio desta, a essência da personalidade de Olga, personagem do trabalho. A preocupação com os detalhes, com o ambiente e com o modo como as imagens foram captadas contribuíram para que essa mensagem fosse passada. Para obtermos embasamento sobre o tema, também foram consultados livros e artigos especializados no tema.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
O produto final de “Fotografia em Movimento” proposto em aula teve como primeiro passo a definição de um assunto com relevância social para que, no geral, o trabalho contribuísse com reflexões e ideias. Após esse passo, teve-se a confirmação da data e do local onde seriam feitas as imagens. De acordo com Einsenstein (2002), os elementos que compõe o quadro em que uma imagem está inserida são captados de forma superficial e, apenas a partir do momento em que estas representações são unidas, surge uma nova ideia e um novo conceito acerca do presente produto. Em um ensaio fotográfico, pode-se reforçar esta ideia, uma vez que as imagens são dispostas de modo a atingir o espectador. No dia da captação das imagens, nos direcionamos até a casa da personagem equipados com uma câmera (Canon EOS Rebel T3i), que também faz filmagens. Foram tiradas cerca de 2300 fotografias, no total, em formato bitmap comprimido como JPEG. Após essa captação, houve um processo rigoroso de seleção das imagens que entrariam no produto final e também em que ordem estas apareceriam, de modo a criar uma linha do tempo cronológica na qual o espectador poderia se envolver com a narrativa. Esta seleção deu prioridade àquelas imagens captadas em sequência e que davam a sensação de stopmotion e também a imagens singulares que possuíam grande valor expressivo atrelado a elas. A narrativa criada seguiu o conceito de plot points (pontos de virada), proposta por Field (2016), onde, ao final de cada ato, existe um acontecimento que dá um novo rumo ao roteiro. Este método visa prender a atenção do expectador, fazendo com que ele se mantenha atento e interessado no produto apresentado. O Ato I se dá nos minutos iniciais do vídeo, onde este expectador entra em contato com o ambiente no qual a personagem vive e pequenos aspectos de sua vida cotidiana – detalhes neste ambiente que marcam sua personalidade – e, ao final deste ato, temos o primeiro plot point, que é a revelação do rosto de Olga. A partir deste ponto, o expectador passa a conhecê-la e, de certa forma, criar mais intimidade com ela e com a narrativa. O Ato II consiste apenas em mostrar as diferentes faces da personagem, assim como traços marcantes de sua personalidade – olhos, mãos, tatuagens, etc –, para que, dessa forma, o público tenha a sensação de ir descobrindo quem é essa pessoa presente no vídeo. Deste processo de descoberta é que surge o nome “Descobrindo Olga”, pois, assim como a própria personagem passou por um processo no qual precisava “(re)descobrir” quem era, o expectador presencia um processo semelhante, no qual vai aos poucos conhecendo a personalidade de Olga. Ao final do Ato II, temos uma cena onde a personagem se encontra em frente a um espelho. Este momento – o segundo plot point – é onde reside uma das maiores cargas emocionais atreladas à narrativa, já que, em sincronia com a música, o olhar da personagem é carregado de emoções e, com isso, convida o expectador a sentir essas emoções e refletir acerca do assunto. A partir daí, o Ato III está ao final do vídeo, onde temos uma imagem que mostra a personagem segurando a caixa com os remédios que a ajudaram em sua transição, seguida de um depoimento em áudio. O vídeo encerra-se com um plano detalhe do rosto de Olga. A disposição das imagens ao longo do vídeo seguiu a sequência cronológica e rítmica da música em questão, utilizando um software de edição de vídeo (Adobe Première CC). Optamos por mesclar as imagens ao ritmo da música, obedecendo a pausas, ápices, etc. Por conta disso, a sensação transmitida ao expectador consegue promover uma sincronia única entre imagem, vídeo e áudio.
 
CONSIDERAÇÕES
As mídias sociais vêm utilizando com mais frequência a fotografia com sobreposição de outras linguagens, entretanto, existem lacunas no que se sabe sobre o tema. O estudo pode ser amparado por outras disciplinas referentes à edição e narrativa audiovisual. Construir esse projeto foi desafiador por ser um tema delicado e complexo, que exigia uma narrativa contínua em fotos. A fotografia é um registro único, no qual se pode captar a essência daquele momento ou pessoa. Cruzar a fotografia com depoimentos que expressavam aquela narrativa nos fez perceber que as possibilidades de trabalho com a fotografia são muitas, criando assim algo novo. A respeito da temática escolhida para o trabalho, essa narrativa busca trazer a mensagem que todas as pessoas merecem respeito e oportunidades. Pessoas transexuais sofrem diariamente com o preconceito, dentro e fora de casa, são vistas como pessoas promíscuas e muitas vezes são objetificadas. Procuramos trazer o lado humano e resistente dessas pessoas, mostrando a dificuldade em se descobrir e se mostrar para o mundo. Olga, nossa personagem, enquanto Caio, não se sentia Caio. Durante esse trabalho pudemos observar de perto como sofre, como age e como se sente uma pessoa transexual. Pudemos acompanhar seu cotidiano, seu tratamento hormonal e sua busca por realizações e sonhos. “Descobrindo Olga: uma jornada para a autoaceitação”, nos leva a refletir como tratamos o outro, nos leva a refletir o que realmente importa. Todos, sem exceção, merecem respeito, amor e chance de sucesso. E poder compartilhar a história de uma pessoa que se ama independente do que pensam ao seu respeito ou sobre seu gênero é uma maneira de incentivar e demonstrar o quanto é importante estarmos bem conosco mesmos, e perceber que devemos tratar o outro como gostaríamos de sermos tratados.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
FIELD, Syd. Manual do Roteiro: Os fundamentos do texto cinematográfico. Editora Objetiva, 2016

SANTAELLA, Lucia (org.). Novas formas do audiovisual. Editora Estação das Letras e Cores, 2016.

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. Mateus Araújo Silva (trad.). 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify [2004] 2011.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

FERNANDES JUNIOR, Rubens. Processos de Criação na Fotografia apontamentos para o entendimento dos vetores e das variáveis da produção fotográfica. Disponível em: Acesso em: 09 de novembro de 2016.

MACHADO, Bruno. Qual a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual? Disponível em: Acesso em: 08 de novembro de 2016

Lab’s 2.0. Fotografia expandida. Disponível em: Acesso em: 10 de novembro de 2016.

PIRES, Annelize. Representação Transexual na Mídia: Uma análise do Programa Conexão Repórter. Disponível em: Acesso em: 09 de novembro de 2016.

AFP. Estudo prova que transexualidade não é transtorno psiquiátrico. O GLOBO. São Paulo, 20 de julho de 2016. Disponível em: Acesso em: 10 de novembro de 2016.

PERREIRA DE OLIVEIRA, Antonia Leonida. Análise jurídica da transexualidade no Brasil. Disponível em: Acesso em: 11 de novembro de 2016.

EBC, Transexuais: descoberta sobre gênero e identidade começa na infância; 2015. Disponível em: Acesso em: 20 de abril de 2017.

EBC; Com 600 mortes em seis anos, Brasil é o que mais mata travestis e transexuais; 2015. Disponível em: Acesso em: 20 de abril de 2017.