INSCRIÇÃO: 01191
 
CATEGORIA: JO
 
MODALIDADE: JO13
 
TÍTULO: Radiodocumentário: O Tesouro de Bau
 
AUTORES: ARIANE FRASSTO GENEROZO (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO); TAINÁ VÉTERE DE BRITO (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO); MARIANA BERRO POMPÉIA FRAGA (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO); INAIÁ BRANDÃO MELLO (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO); MARINA GODOY BARRIOS (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO); DANIELA PEREIRA BOCHEMBUZO (UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO)
 
PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo, Jornalismo literário , Sebo, Rádio,
 
RESUMO
Adotando as características textuais do Jornalismo Literário, O Tesouro de Bau é um radiodocumentário produzido com o intuito de expor vertentes desconhecidas e relevantes a respeito de referência cultural da cidade de Bauru – SP. O Sebo do Bau, como é chamado, é de grande importância cultural e social para os seus cidadãos, pois abriga mais de 150 mil exemplares de objetos, dentre eles, livros e vinis, dos quais muitas obras raras. Além da abordagem caracteristicamente jornalística, fazendo-se presente ao trazer dados e histórias que se passaram dentro e fora do sebo, este produto descreve de maneira lúdica um lugar singelo e antigo, mas que reserva grandes referências de cultura, conhecimento e informação para a população.
 
INTRODUÇÃO
Observando o cenário atual, nota-se que a sociedade vive uma era onde muitas funções estão ligadas ao digital. Os aparelhos eletrônicos facilitam a comunicação a distância e oferecem vários suportes de entretenimento para que o tempo livre das pessoas seja ocupado. Apesar dessa perspectiva, a leitura ainda continua sendo um grande hábito da população brasileira e, de acordo com a pesquisa do Instituto Pró-Livro (IPL) de 2015, está presente entre 56% da população. Diante disso, é válido destacar a existência de locais que possibilitam o acesso do cidadão ao mundo da literatura. Pois, ainda de acordo com a pesquisa, 77% dos brasileiros gostariam de ter lido mais. Dentre os fatores que justificam esse fato está o preço dos livros. Nesse contexto, é preciso intensificar a importância dos Sebos na sociedade. A partir dessa necessidade, o grupo decidiu contar a história de um dos Sebos mais antigos da cidade de Bauru, o Sebo do Bau, referência cultural do município. Roberto de Bau é o dono dessa relíquia, que desde o ano 2000 se mantém vivo no centro da cidade. O local é um verdadeiro baú de história, com mais de 150 mil exemplares de objetos, dentre eles, livros, vinis, objetos de decoração e muitas outras relíquias que ganham vida e despertam os mais variados sentimentos. Por meio da abordagem do Jornalismo Literário, que imprimiu uma nova ordem jornalística ao agregar ao relato jornalístico o sentir, perceber, emocionar e usar o potencial sensório do corpo (LIMA, 1995), aplicado ao formato de radiodocumentário, formato de ampla extensão informativa (FERRARETTO, 2014), o grupo viu a oportunidade de contar uma história relevante sem abrir mão de suas emoções e sensibilidades, uma vez que o rádio é um meio cego e estimula a imaginação do ouvinte, assim como o texto literário. Dessa maneira, o "Tesouro de Bau" é uma narrativa semelhante a de um livro, que embarca nas histórias de Bau através de personagens que possuem uma ligação com o local.
 
OBJETIVO
Umas das maneiras mais interessantes de se contar histórias é aquela que envolve vidas humanas, pois permite conduzir o leitor para uma viagem cativante e com muitas descobertas. Nesse sentido, a proposta do projeto foi desenvolver, através da plataforma radiofônica, um radiodocumentário que narrasse e ilustrasse a história de uma das riquezas escondida na região comercial da cidade de Bauru - SP, o Sebo do Bau. Por meio do Jornalismo Literário e pelo viés do formato perfil, o produto busca contar a trajetória do dono de sebo Roberto de Bau e de pessoas que, de alguma maneira, fazem parte desse universo, de forma a informar e, simultaneamente, estimular a imaginação do ouvinte sobre essa relíquia cultural local.
 
JUSTIFICATIVA
Muitas ideias surgiram para a realização do radiodocumetário, que desde o princípio objetivou abordar algum tema que, de certa forma, gerasse visibilidade a algo que muitas vezes passa despercebido pelas pessoas. Sendo assim, foi escolhido como tema os sebos, famosos por abrigarem livros e também objetos usados, mas esquecidos por muitas pessoas, a despeito de abrigarem um legado cultural muito importante para a sociedade. Quando a história e trajetória do Sebo do Bau foram definidas como objeto de pesquisa e produção, o grupo embarcou em uma tradição de família que vinha de longa data pois: desde a década de 90, o sebo mergulha fundo no mundo cultural e alcança as prateleiras de muitos leitores do município. Por ser parte da essência cultural da cidade, avaliou-se preliminarmente a necessidade de deixar mais visível um local que tem tanto para oferecer as pessoas, mas que inúmeras vezes se passa despercebido por elas. Tomando essas características como pontos referenciais, o Jornalismo Literário se encaixou perfeitamente à forma de abordagem almejada pelas integrantes no início do projeto. Não é a forma de jornalismo mais popular, nem a mais constante. Tampouco é o estilo dominante na imprensa. Como não é o maior, resta-lhe ser diferente. Pois são precisamente as diferenças que marcam este tipo particular de jornalismo, quando comparado aos padrões mais conhecidos, que lhe dão uma identidade toda própria, uma força comunicativa poderosa e uma qualidade estética notável. (LIMA, 2010, p.9). Sob a estética do Jornalismo Literário, caracterizado por descrições detalhadas, diálogos e aproximação do real por meio de analogias e uso de personagens, o grupo atentou-se à necessidade de fazer uso de uma linguagem lúdica, mas impregnada de verossimilhança, a fim de cativar a atenção do público e, mais que isso, provocar a sensação de estar no cenário descrito e despertar a imaginação do ouvinte ao acompanhar o que é narrado ao longo do radiodocumentário, formato escolhido por permitir abordagem extensa e certo grau de liberdade de criação.
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
Para a definição do tema, o grupo deu prioridade a assuntos que poderiam relacionar aspectos culturais e sociais. Após pesquisa preliminar a trabalhos anteriormente realizados nas disciplinas de rádio, decidiu-se por documentar a história do Sebo do Bau e indicar seu impacto para a população de Bauru. O primeiro passo para a realização do radiodocumentários, como recomenda McLeish (2001), se deu através do briefing, uma coleta de dados e informações fundamentais para o desenvolvimento do produto. [...] é uma ótima prática o produtor escrever um briefing para o programa, respondendo às seguintes questões: "Aonde quero chegar?", "O que quero deixar para o ouvinte?". Mais tarde, a decisão sobre inclusão ou não de determinada matéria fica mais fácil à luz da própria declaração de intenção do produtor. (MCLEISH, 2001, p. 191). Elaborado o briefing, a fim de melhor conhecer o objeto a ser documentado, a equipe realizou uma visita in loco, o que permitiu analisar o local e conversar com o proprietário. A visita foi de extrema importância para estabelecer a montagem do roteiro, uma vez que se utiliza da descrição e da narrativa literária para contextualizar e prender a atenção do ouvinte. Após a visita, foram feitas entrevistas com pessoas relacionadas ao desenvolvimento do Sebo, consumidores e profissionais que defendem a importância do local para a sociedade. Com os depoimentos coletados, foram feitas as transcrições das falas, de forma a agrupar e identificar os valores dos dados coletados, permitindo a escolha dos conteúdos que seriam utilizados. Na sequência, a fim de aprofundar o tema e o contexto, foi realizada pesquisa documental através de jornais da cidade de Bauru, do ano de 1992, data de fundação do sebo, disponibilizados no Núcleo de Pesquisa e História da Universidade do Sagrado Coração "Gabriel Ruiz Pelegrina" (NUPHIS). A pesquisa bibliográfica também foi utilizada para embasar teoricamente e auxiliar o planejamento e o desenvolvimento do produto. Pesquisa bibliográfica, num sentido amplo, é o planejamento global inicial de qualquer trabalho de pesquisa que vai desde a identificação, localização e obtenção da bibliografia pertinente ao trabalho [...]. (DUARTE; BARROS, 2014, p. 61). Para desenvolver a narrativa radiofônica, o grupo optou por trabalhar com o Jornalismo Literário, estilo cujas características discursivas envolvem o ouvinte ao mesmo tempo em que suscitam o imaginário. De acordo com Pena, o jornalismo literário Significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lide, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos. (PENA, 2006, p.14). Desta forma, o jornalismo literário se mostra fiel aos elementos da literatura ao atuar em conjunto com as premissas do jornalismo, que envolvem a apuração dos fatos e o registro da realidade por meio de relato coeso e coerente. "Em termos modernos, a literatura e o jornalismo são vasos comunicantes, são formas diferentes de um mesmo processo." (LIMA, 1995 apud SCHNAIDERMAN). Como parte do gênero, entendido como "o elo dos diferentes momentos da cadeia que une espaços da produção, anseios dos produtos culturais e desejos do público receptor" (MARTÍN-BARBERO, 1987, p.239), no caso o jornalístico, escolhemos o formato documentário jornalístico, pois: O documentário jornalístico mescla pesquisa documental, medição dos fatos in loco, comentário de especialistas e de envolvidos no acontecimento, e desenvolvem uma investigação sobre um fato ou conjunto de fatos reais, oportunos e de interesse atual, de conotação não artística. (BARBOSA FILHO, 2003, p.102). Avaliou-se que esse formato era o mais adequado à abordagem do tema e ao uso do jornalismo literário pois permitiria dar a profundidade à história, favorecendo a construção da narrativa. Outra vertente que possibilitou melhor desenvolvimento da abordagem foi a opção pela entrevista perfil. Para Piza (2003, p.44), "o bom perfil nunca esquece que aquele criador está em destaque pelo que fez ou pela reputação que ganhou fazendo o que fez. É intimista sem ser invasivo, e interpretativo, sem ser analítico". Com isso, o grupo conseguiu imprimir ao roteiro o tom desejado. Realizadas essas etapas, buscou-se identificar pessoas que poderiam contribuir para a composição do documentário. Foram elas: Roberto Francisco de Bau, proprietário do sebo; João de Bau, pai de Roberto e fundador do sebo; Maximiliano Vicente, historiador; Valéria Assoline, professora de literatura do ensino médio; Eliane Escossiato, bibliotecária; Rafael Andrade, Gabriel Rueda, Cândido Rueda e Heitor Ponce, consumidores do sebo. As coletas das nove entrevistas, juntamente com os efeitos de sonoplastia, foram cruciais para dar vida e forma à narrativa, uma vez que, segundo Zuculoto (2012), o rádio é um meio cego e estimula a imaginação, criando imagens na mente do ouvinte. Por meio desses métodos, o grupo conseguiu executar o roteiro e assim determinar uma rotina para a gravação do produto. Todo o material foi gravado e editado no Laboratório de Rádio da universidade e contou com o auxílio dos técnicos e orientação da professora responsável pela disciplina Laboratório de Jornalismo Radiofônico II. Com o documentário concluído, foi realizada uma apresentação em sala de aula, a partir da qual foram tecidas considerações acerca do produto.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
O radiodocumentário "O tesouro de Bau", com duração de dezenove minutos, conta a história do Sebo do Bau, desde quando começou até os dias de hoje, discutindo a importância e o significado que possui na sociedade de Bauru. O tema foi subdividido em capítulos, de forma semelhante a um livro, para introduzir os subtemas (o início, o mundo de Bau, os personagens, a importância e o futuro), conciliando as informações ao que havia sido previsto no briefing. Considerando que o rádio proporciona impacto individual, ao suscitar envolvimento do receptor com a mensagem através da empatia (ZUCULOTO, 2012) e do convite ao diálogo, o roteiro contou com falas sinalizadores e recursos de sonoplastia, para despertar a imaginação. Isto foi fundamental para dar personalidade ao produto. Exemplo foi o recurso utilizado para sinalizar o início de um novo capítulo: o efeito de uma folha de livro sendo virada. Outro recurso sonoro adotado foi a trilha sonora, composta por duas músicas. As canções foram escolhidas a partir de alguns discos que estavam em uma das prateleiras do Sebo. Foram elas: "Chega de Saudade", de Tom Jobim, e "Terra de Gigantes", dos Engenheiros do Hawaii. A trilha acompanha apenas os períodos narrativos que descrevem o local. Através de todos esses elementos, associados ao depoimentos das fontes, o "Tesouro de Bau" resultou em imersão ao mundo imaginário dos livros.
 
CONSIDERAÇÕES
Produzir um radiodocumentário em Jornalismo Literário é ter a oportunidade de levar até as pessoas assuntos que fogem do tradicional ou que precisam de um novo olhar. Este é o caso dos sebos, um dos locais que passam muitas vezes despercebidos ao cidadão, mas que carregam importante bagagem cultural, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Ao fazer uso do Jornalismo Literário, dos recursos do rádio, da entrevista perfil e do formato radiodocumentário, acreditamos que o produto elaborado para a disciplina de Laboratório de Jornalismo Radiofônico II conseguiu trazer de maneira abrangente e detalhada a história do Sebo de Bau e de seus criadores, passando por seus clientes e referências para a sociedade. Ao ouvi-lo, as características do Jornalismo Literário e dos dados obtidos por meio da descrição cuidadosa acabam por ressaltar importância desse estabelecimento cultural aos cidadãos. De viés documental, 'O Tesouro de Bau' transporta o ouvinte para o lugar, conduzindo-o às estreitas e altas prateleiras, aos degraus das escadas repletas de artigos desparceirados, mas que, naquele ambiente, se completam. É a captação do real por meio do sensório. Ao motivar o envolvimento com os acontecimentos, situações e o lugar, o produto atinge seu objetivo em fazer com que aqueles que o escutam se sintam e se imaginem em meio aos itens encontrados no Sebo do Bau.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
BARBOSA FILHO, André. Gêneros radiofônicos. São Paulo: Paulinas, 2003.

BARROS, Antonio; DUARTE, Jorge. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas editora, 2010.

IPL - INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil 2015. Disponível em: http://prolivro.org.br/home/images/2016/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_-_2015.pdf . Acesso em: 18 abr. 2017.

LIMA, Alceu Amoroso. O jornalismo como gênero literário. São Paulo: Com-Arte: EDUSP, 1990.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. 2e. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995.

LIMA, Edvaldo Pereira. Jornalismo literário para iniciantes. São Paulo: Edição do Autor, 2010.

MCLEISH, Robert. Produção de rádio: um guia abrangente de produção radiofônica. São Paulo: Summus, 2001.

PENA, Felipe. Jornalismo literário. São Paulo: Contexto, 2006.

PIZA, Daniel. Jornalismo cultural. São Paulo: Contexto, 2003.

SOUSA, Jorge Pedro. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.

ZUCULOTO, Valci Regina Mousquer. No ar: a história da notícia de rádio no Brasil. Insular, 2012.