INSCRIÇÃO: 01714
 
CATEGORIA: JO
 
MODALIDADE: JO04
 
TÍTULO: Revista Dossiê
 
AUTORES: Rarissa Urruth Grissutti (Centro universitário Ritter dos Reis); Eduardo Brusch Müller (Centro universitário Ritter dos Reis); MATHEUS FELIPE DA SILVA (Centro universitário Ritter dos Reis)
 
PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo Investigativo, Meio Ambiente, Revista Dossiê , ,
 
RESUMO
A Revista Dossiê é resultado do trabalho prático desenvolvido na disciplina de Jornalismo Investigativo no Centro Universitário Ritter dos Reis, UniRitter. O trabalho objetiva fortalecer a narrativa em profundidade enquanto modelo jornalístico, através de produto impresso experimental. Trata-se de um projeto pioneiro no âmbito da graduação em Jornalismo, cuja temática é pautada pelo impacto e relevância social. Percebe-se que o trabalho também apresenta a importância da ética na formação acadêmica como promotora de boas práticas de jornalismo.
 
INTRODUÇÃO
A disciplina de Jornalismo Investigativo no Centro Universitário Ritter dos Reis, UniRitter, em Porto Alegre tem como objetivos gerais constantes no plano de ensino: -Promover o conhecimento das características da construção de uma reportagem investigativa; -Despertar o senso crítico em relação às coberturas jornalísticas e refletir sobre questões éticas e legais das técnicas investigativas; -Proporcionar o conhecimento técnico por meio da prática. A partir disso, o desafio proposto à disciplina em 2016/2 foi criar uma revista chamada Dossiê, única revista impressa de Jornalismo Investigativo exclusivamente desenvolvida pelo corpo discente com supervisão docente no âmbito dos cursos de graduação em Jornalismo no país. Um trabalho que mobilizou cerca de 60 alunos em dois turnos na realização de 10 narrativas em profundidade, valorizando a ética no fazer-jornalístico e promovendo a reportagem investigativa no jornalismo impresso.
 
OBJETIVO
O que se pretende é reforçar o papel da reportagem no cenário contemporâneo a partir do paradigma de que sobrevivência da reportagem, no gênero informativo ou interpretativo, no jornalismo brasileiro também depende da sobrevivência da reportagem no currículo dos Cursos de Jornalismo. Esse foi um fator decisivo no momento de se idealizar, planejar e realizar um produto impresso com narrativas em profundidade no Centro Universitário Ritter dos Reis, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O trabalho contou com a mobilização de cerca de 60 alunos, em dois turnos, que abordaram pautas de relevância e impacto social.
 
JUSTIFICATIVA
No cotidiano da cobertura dos fatos que interessam à sociedade, a conduta ética se mistura com a própria qualidade técnica de produção do trabalho. Dessa maneira, para Christofoletti (2008), os jornalistas não devem se descolar de seus comprometimentos e valores, se esquecerem das suas funções e relações com o público, podem colocar tudo a perder. Para um jornalista, abandonar o compromisso com a verdade não é um deslize, é uma falha ética e grave. Então, há especificidades no campo da ação humana, da conduta ética. O jornalismo – a exemplo de outras profissões – tem suas particularidades, e não só é necessário conhecê-las como também refletir sobre elas, atualizando as diariamente. Como se faz nas páginas dos jornais com as notícias. (CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 11) O Código de ética dos jornalistas brasileiros foi implantado em 1987 depois de aprovado no Congresso Nacional dos Jornalistas. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, a FENAJ, o documento “fixa as normas a que deverá subordinar-se a atuação do profissional, nas suas relações com a comunidade, com as fontes de informação e entre jornalistas”. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação. Art. 7º O jornalista não pode: […] b) submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação; c) impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de ideias; d) expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais; […] i) valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais. Outro fator fundamental e que acaba sendo explorado é o relacionamento com as fontes, pois são elas que trarão as vozes transformadas em citações diretas e indiretas da reportagem. Com a supervisão docente fica evidente que o trabalho em sala de aula está alicerçado na ênfase e aprofundamento de dinâmicas envolvendo a pauta, a entrevista e a interação repórter e fonte. Nesse sentido, é na marcação das entrevistas ocorrem durante todo o semestre. A todo o momento fomos desafiados, a partir da escolha da pauta, a possibilidade de realizar a matéria em lugar mais adequado para ambientar a história. Durante a entrevista, é fundamental que nós, na condição de repórteres, saibamos com quem estamos lidando. Conforme Lage (2004), “a entrevista é o procedimento clássico de apuração de informações em jornalismo. É uma expansão da consulta às fontes, objetivando, geralmente, a coleta de interpretações e a reconstituição de fatos”. Outro autor estudado na disciplina e que nos auxiliou na conexão teoria-prárica foi Mark Lee Hunter (2013) no manual A investigação a partir de histórias: Um manual para jornalistas investigativos, que destaca a possibilidade de iniciar uma investigação através de uma versão oficial. Seja uma entrevista ou até mesmo um release. Para reforçar a ideia. Ele destaca ainda a necessidade de dar atenção às fontes, chamadas por ele, de abertas. O jornalista sugere que 90% dos fatos a serem investigados estão disponíveis em uma fonte aberta. Uma fonte que pode ser livremente acessada. O que a prática nos ensinou e Christofoletti (2008) reforça é que não existe uma só maneira de lidar com as fontes: “fato é que não se faz jornalismo sem fontes de informação, assim como não se tem notícias sem apuração, checagem de dados e confirmação de versões” (2008, p. 41). Desse modo, Christofoletti (2008) indica caminhos para que o jornalista não caia em armadilhas: checar as informações, investigar, apurar e comparar relatos, sempre em busca da verdade. Nesse processo sem receita de bolo cabe ao repórter dar à medida que o distancia de suas fontes, às vezes mais perto, em outras mais longe.
 
MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
Para Sequeira (2005), qualquer prática jornalística parece fruto de uma investigação, no entanto o jornalismo investigativo é uma categoria que se diferencia das demais justamente pelo processo de trabalho do profissional, como métodos de pesquisa e estratégias operacionais. Por conseguinte, pela capacidade de reconstruir acontecimentos importantes, expor injustiças e, principalmente, mostrar os meandros da corrupção no setor público – que os poderes estatais querem ocultar dos cidadãos, o jornalismo investigativo, com sua face fiscalizadora, tornou-se conhecido pela sociedade (SEQUEIRA, 2005, p.61). Nesse quesito destacamos o Capítulo III do código de Ética retrata a responsabilidade profissional do jornalista. O Artigo 11°, do inciso II, salienta que o jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes. Já no inciso III do mesmo capítulo, destaca que o jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, como o uso de identidades falsas, câmera escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração. Desse modo, na disciplina fizemos uma relação entre teoria e prática entre os 16 passos propostos por Fortes (2014, p. 35-43): 1) Pesquisa minuciosa de cada nuança dos fatos feita com os olhos críticos que deve ter todo bom repórter. 2) Pesquisa e concentração, porque uma boa investigação é demorada e, normalmente, recheada de documentos, dados, estatísticas, legislações e códigos de onde se tira o extrato necessário para a notícia. 3) Insistência e perseverança, seja a partir de informações fragmentadas, seja a partir da própria intuição. 4) Atenção especial a todos os tipos de documentações disponíveis, inclusive as públicas. 5) Entrevistas, muitas entrevistas, com objetivo de obter o maior número possível de informações, contrapontos, críticas, pistas e, sobretudo, contradições dentro da apuração. 6) Conhecimento policial básico. Veja bem: não significa manter em casa um laboratório de análise papiloscópica, nem um kit com lupa, algemas e pistola. 7) Curiosidade e desconfiança. Essas duas características da alma humana devem sempre andar juntas durante uma cobertura jornalística que envolve investigação. 8) Discrição. O movimento silencioso de um bom repórter pode ser, muitas vezes, a chave de uma reportagem de sucesso. 9) Checar, checar, checar. E checar outra vez, toda vez que a informação lhe parecer estranha, imprecisa, inconsistente ou óbvia demais. 10) Liberte-se de preconceitos. Nunca parta de princípios pessoais, religiosos, ideológicos ou coisa que o valha para definir o rumo de sua apuração. 11) Arquivos bem organizados com informações pertinentes ao tema da reportagem também fazem diferença crucial na hora da formulação do texto. 12) Frieza, objetividade e precisão. Aquele político ladrão, aquele pastor safado, aquele padre pedófilo, aquele juiz corrupto, toda essa gente horrível, você sabe, é fonte inesgotável de notícia, principalmente quando se fala de jornalismo investigativo. 13) Lealdade ao leitor é a razão de toda a atividade jornalística. 14) Coragem e responsabilidade, duas coisas que podem viver separadas, mas que juntas se tornam uma blindagem característica de todo grande repórter. 15) Respeito às fontes é uma das chaves da profissão e uma das razões da longevidade dos bons repórteres, principalmente os que cobrem as áreas policiais e militares. 16) Clareza e simplicidade devem pautar a construção do texto e sua edição final, para que o resultado de uma apuração tão trabalhosa como a de uma investigação jornalística não termine em um emaranhado de nomes, números, vocábulos e expressões ininteligíveis.
 
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
Avançando ao tema proposto, o jornalismo investigativo é uma área especializada do jornalismo que tenta desvendar fatos ocultos do conhecimento público, como crimes e casos de corrupção. Segundo Burgh (2008), se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, o jornalismo investigativo é o primeiro rascunho da legislação. “Isso se dá porque ele chama atenção para as formas como esse sistema pode ser logrado pelos ricos, poderosos e corruptos” (2008, p.3). Um jornalista investigativo é um indivíduo cuja profissão é descobrir a verdade e identificar lapsos em qualquer mídia disponível. Isso costuma ser chamado de jornalismo investigativo e difere do trabalho aparentemente similar realizado pela polícia, advogados, auditores e instituições regulatórias, uma vez que não se limita ao público-alvo, não possui fundamentos legais e é estreitamente vinculado à publicidade. (BURGH, 2008, p.10). A prática através do planejamento e execução da revista Dossiê fez com os alunos lidassem com o jornalismo impresso como suporte para o jornalismo investigativo. Assim, sobremaneira se observa que os alunos aprimoraram o estilo de escrita, o mapeamento de fontes, o fotojornalismo e a checagem de informações para reportagens de fôlego, além do desafio estético da diagramação do conteúdo. A capa foi pensada e desenvolvida em duas semanas. Constata-se que uma dezena de opções foram testadas e elaboradas. A escolha da capa feita pelos editores da revista Dossiê foi uma decisão unanime. A intenção era simular uma pessoa com alguns sentidos bloqueados por mãos de outras pessoas.
 
CONSIDERAÇÕES
Assim sendo, a Dossiê deixa como legado a contribuição na busca permanente por qualidade nos produtos jornalísticos aos quais participe, o que também contempla as suas próprias experiências no consumo jornalístico e nos contextos sociais onde atua, além testemunhar e ratificar a importância do papel social da profissão escolhida. A iniciativa reforça a necessidade permanente de o espaço acadêmico propor novos modelos a partir da prática experimental. Como primeira revista impressa especializada em jornalismo investigativo produzida por alunos de graduação em Jornalismo no país. O ideal planejado e o real executado nos mostraram que há sempre espaços a serem percorridos e obstáculos superados. Por fim, acreditamos esse tipo de trabalho nos auxilia na formação como jornalistas com olhar abrangente e humanizador, capaz de vivenciar problemas reais.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS
HUNTER, Max Lee. Um Manual (Unesco) para Jornalistas Investigativos. A Investigação a partir de Histórias. 2013. Disponível em: . Acesso em: 07 de abril de 2017.

LAGE, Nilson. A Reportagem: Teoria e Técnica de Entrevista e Pesquisa Jornalística, 9°. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

SEQUEIRA, Cleofe Monteiro de. Jornalismo Investigativo: o Fato por trás da Notícia. São Paulo: Summus, 2005