Anamaria Fadul











Entrevista com a professora Anamaria Fadul


Realizada em: 7 de agosto de 2015

Pesquisa e roteiro: Alice Melo

Entrevistadores: Ana Paula Goulart e Cláudio Ornellas

Transcrição: Camila Rouças

Edição: Cláudio Ornellas





Diga, por favor, seu nome completo, local e data de nascimento.


Anamaria Fadul, nascida em Assis, Estado de São Paulo, em 16 de junho. Ano não tem.


Como se chamam seus pais e qual era a atividade profissional deles?


José Fadul Júnior e Dativa Lutti Fadul. Meu pai é advogado. Minha mãe do lar.


Qual foi a sua formação? Onde você estudou?


Eu estudei em colégio de freira em Assis, o curso ginasial, depois fui pra Campinas, fiz lá o colegial e depois vim para São Paulo e fiz Filosofia na USP.


Como se deu seu interesse pela vida acadêmica e, especificamente, pela filosofia?


A questão da filosofia foi uma professora do colegial, do ensino médio, que realmente despertou em mim esse interesse. Eu queria fazer Direito, mas meu pai era advogado e disse que de jeito nenhum, não deixou. Ele queria que eu fizesse Economia e eu não quis fazer Economia. Então, a saída foi pela Filosofia, quer dizer, nem Direito, nem Economia, mas sim Filosofia. Aí eu vim pra USP, fiz Filosofia e fui me encantando pela área acadêmica. O curso da Maria Antonia era, imagina, eu entrei em 1963, o centro da intelectualidade paulista. Eu assisti a aulas do Rancière, que era o colaborador do Althusser, de todos esses grandes pesquisadores franceses, a gente fazia curso com todos os professores que vinham pra cá. E uma coisa mais interessante: os cursos eram em francês, quer dizer, quando você entrava no curso de Filosofia, estava pressuposto que você sabia falar francês. Então, depois teve também a professora Danielle Ancier, que veio dar Filosofia Política, ela falava francês no curso de segundo ano de graduação, não era nem pós. Então, vários professores, Michel Debrand, Michel Legrand, esses eram fixos no programa. A Danielle Ancier que ficou dois anos, três anos, e depois ela se casou com Rancière, ela conheceu Jacques Rancière aqui e depois se casa com ele, essa coisa toda. Ela foi minha orientadora também num determinado período e foi tudo muito conturbado, esse período da Maria Antonia foi um período muito difícil porque as pessoas estavam sendo perseguidas. A Danielle, por exemplo, teve que fugir do país. Ela tinha ligação com os dominicanos, inclusive uma vez eu fui à casa dela e tinha lá um padre dominicano. E quando ela vai embora, embaixador, todo mundo a levou ao aeroporto, nós fomos no aeroporto, com medo de ela ser presa, porque os dominicanos já tinham sido presos. Então, eu diria pra você que eram momentos muito difíceis, muito tensos, aí 1967-1968, ela saiu do país em 1968. Então, eu acho que o curso de Filosofia na época era um curso onde passava todo mundo, passavam todos os grandes pesquisadores, por exemplo, o Fernando Henrique Cardoso vinha dar palestras pra gente, a gente assistia às palestras lá no curso de Sociologia, essa coisa toda. Então, a Maria Antonia representou um momento muito importante e quando acontece 1968, com aquela crise com o Mackenzie, nós fomos deslocados para a cidade universitária. Eu fazia pós-graduação já nessa época. Eu entrei na Filosofia da USP em 1963, terminei em 1967, em 1968 eu começo a pós-graduação.


Em filosofia?


Em filosofia. Eu começo com a Danielle, a Danielle vai embora também. Então, era tudo muito complicado assim, bem difícil realmente.


Você teve ligações com o movimento estudantil?


Não, não tive, mas eu trabalhei num lugar que era o centro da POLOP, de tudo, o cursinho do grêmio da USP. Então, eu entrei em 1963, em 1965 eu faço um concurso no cursinho do grêmio da USP, eles tinham cursinho de preparação para o vestibular lá e eu começo a dar aula lá. E lá no cursinho você tinha todos os movimentos importantes, então, foi muito difícil, lá tinha tudo que você podia imaginar. Eu não me envolvi, mas meus amigos se envolveram. Só pra dar um exemplo pra você, um dos secretários ali do cursinho do grêmio, ele estava com uma bomba no carro, ele se explodiu na Rua da Consolação. Tinha o João Antônio, que era meu amigo, colega de faculdade, também foi morto. Foi tudo muito difícil, esses anos foram bem difíceis e a gente perdeu muita gente ali. O cursinho do grêmio era controlado pelo pessoal do Marighella, uma confusão ali que você não tem ideia. O cursinho tinha realmente fundos, essa coisa toda, e sem ter uma relação com nada fiquei ali meio que no meio de tudo, tendo relação com todo mundo. Então, eu passei dois anos lá, 1966-1967, eu trabalhei então dando aula para os candidatos ao curso de Filosofia e depois teve mais coisas ainda. A Iara Iavelberg, você imagina a Iara, era professora de Psicologia no vestibular, no cursinho do grêmio da USP, e ela ficou doente, teve uma crise de asma, essa coisa toda e não pode continuar, eu a substituí. Eu vou à casa dela, a gente conversa, de repente de uma hora pra outra ela some e vai lá com Lamarca. Ela é morta em Salvador. Então, parece que meu nome está em tudo quanto é lugar aqui em São Paulo, de segurança, por causa dessas relações. O João Antônio, que também foi assassinado, a Iara, trabalhávamos juntos, então tinha muita gente ali. Mas era uma coisa interessante, eu gostava de trabalhar lá. Aí 1968 eu estou na pós-graduação, a gente já vai lá pra faculdade, pra cidade universitária. Bom, então, rememorando, eu venho para São Paulo, entro no curso de Filosofia da Maria Antonia, cujos professores eram Giannotti, Bento e Cruz Costa, eu peguei o pessoal mais antigo também e foi bem estimulante o curso. Quando tem o conflito lá com Mackenzie a gente vai pra cidade universitária, e aí eu fico lá na cidade universitária fazendo pós-graduação. E aí, em 1969, fui convidada para entrar no Departamento de Filosofia, aí eu já tinha passado pela Daniella, que foi embora, a Gilda de Mello Franco também foi minha orientadora, mas eu não quis fazer estética. A história foi a seguinte; eu fui convidada para entrar no departamento e falei: “Olha, eu vou se trocar de orientador, porque eu não quero fazer estética, eu quero ficar com o Giannotti”. Aí eu impus essa condição. Aí o Giannotti me aceita como orientanda, me dá todas as coordenadas, essa coisa toda, ele fica um mês e é demitido da USP. Então, a minha história na pós-graduação foi muito conturbada, a Danielle teve que fugir do país, depois Gilda, depois Giannotti, e eu termino com a Maria Sylvia de Carvalho Franco, que é socióloga e que assume a chefia do departamento quando todos são demitidos. O Bento é demitido, o Giannotti é demitido e aí há histórias assim incríveis. Eu entro no departamento, o departamento não funciona, de março a julho era só discussão, ninguém fazia nada, foi um transtorno demitir todo mundo assim, e aí eu fui designada para ir para a Escola de Comunicações e Artes. Então é desse jeito, entro no Departamento de Filosofia, o departamento está parado, eles tinham convidado um professor, o Lívio Teixeira, para concorrer à disciplina de Filosofia na Escola de Comunicações e Artes, e o Lívio disse o seguinte: “Eu só aceito se me derem um assistente”. E aí, como eu estava entrando no departamento, me colocam para ir para a Escola de Comunicações e Artes como assistente do Lívio. Aí o Lívio fica um mês e tem um derrame cerebral, aí eu fico sozinha lá, dando Evolução do Pensamento Filosófico Científico. Quando eu entro, a Lupe já estava doente, então, ao mesmo tempo que eu estou dando essa disciplina, eu vou dar uma mão pra ela, e ela morre em fevereiro de 1970, ela morre logo no comecinho e eu fico sozinha. Nós éramos em três professores de Filosofia e, de repente, eu fiquei sozinha na Escola de Comunicações e Artes, dando Filosofia. A Lupe dava Estética, eu e o professor Lívio dávamos Evolução do Pensamento Filosófico, aí eu fiquei sozinha porque um se afastou por doença, a outra falece. E os meus contratos não andam na USP porque eu estava envolvida com toda essa gente. A Helena Hirata era também do movimento, não sei em que movimento ela estava também, então, como o contrato foi proposto para três professores juntos, parou na reitoria. Eu acho que se eu não tivesse ido para a Escola de Comunicações e Artes meu contrato nunca teria saído. Aí então, quando a Lupe falece, dou a aula dela, dou as minhas também e o meu contrato não saía de jeito nenhum. O primeiro sumiu, o segundo não tocou, aí a Escola de Comunicações e Artes, como não tinha mais ninguém pra dar Filosofia lá, aí fazem meu contrato. Então, foi desse jeito, eu fui emprestada do Departamento de Filosofia pra Escola de Comunicações e Artes, nós éramos em três professores, eu fiquei sozinha, não tinha jeito e aí eles me contratam pela Escola de Filosofia. Não se sabe até hoje por que, onde foram parar os contratos, esses dois contratos que sumiram na reitoria. Era muito difícil, eram momentos dificílimos. E aí eu fiquei lá, sem ter escolhido, sem ter nada, me apaixonei pela área, sou uma pessoa completamente voltada para a pesquisa em comunicação, eu acho filosofia uma base importantíssima, mas eu estou muito ligada à mídia, ligada aos meios e aí minha tese de doutorado já não é sobre o John Locke, minha tese de doutorado é sobre a teoria dos meios.



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