Prof. Chaparro fala de seu novo projeto de pesquisa em palestra na Cásper Líbero

29 de outubro de 2018

O grupo de pesquisa “Jornalismo Contemporâneo, práticas para a emancipação social na cultura tecnológica” promove, nesta terça-feira (30/10), das 18h às 20h, na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, a palestra “O jornalismo como linguagem performativa dos conflitos na civilização digital”, com o professor Manuel Carlos Chaparro (ECA-USP), membro do Conselho Curador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).

A palestra marca o início de um inovador projeto de pesquisa que pretende estabelecer uma nova teoria de jornalismo para a era digital, liderado pelos professores Chaparro e Vitor Blotta (ECA-USP) no âmbito do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade e do Instituto de Estudos Avançados da USP. “O jornalismo tem que ser zelado e protegido porque deixou de ser uma profissão. Hoje é um bem público, enquanto linguagem: linguagem performativa dos conflitos na civilização digital”, afirma o prof. Chaparro.

Em entrevista ao JORNAL INTERCOM, o professor Chaparro explicou o novo projeto de pesquisa. Confira os principais trechos.

A NECESSIDADE DE UMA NOVA TEORIA DE JORNALISMO

“As teorias de jornalismo que temos hoje são todas resultantes de uma cultura jornalística gerada na Revolução Industrial, em que o jornalismo era tratado e acalentado como o Quarto Poder – o Quarto Poder sitiado em redações. Então, você não encontra nenhuma teoria de jornalismo que fale do jornalismo ou da importância do jornalismo numa perspectiva em que as fontes e os leitores não sejam apenas objetos.

A ideia do Quarto Poder das redações estava assentada no intervalo que as tecnologias da época exigiam entre o acontecimento e a notícia. O ritmo de vida era determinado pelo hábito da leitura dos jornais, pelo hábito de assistir aos telejornais que se repetiam em certos horários diariamente. Isso desapareceu na era digital: não existe mais a periodicidade, não existe mais o intervalo entre o acontecimento e a notícia. Esse intervalo criou o pressuposto do poder do jornalismo e do jornalista: eles é que tinham o poder de decidir como noticiar, quando noticiar, se noticiar. E isso desapareceu. O acontecer e o difundir, nas tecnologias da difusão digital instantânea e planetária, se fundiram porque hoje nós assistimos a qualquer grande acontecimento na hora e no momento em que as coisas acontecem. E isso mudou tudo, mexeu com todas as teorias. O jornalismo, que era estudado como a profissão de jornalistas na era industrial, na era digital é a linguagem mais importante do mundo.

O jornalismo é uma linguagem performativa, isto é, uma linguagem de grande eficácia para as ações discursivas dos sujeitos sociais, e é o uso dessa linguagem que produz, controla e realiza com sucesso os conflitos da atualidade. É só você assistir a qualquer telejornal e ver que as ações deixaram de ser materiais e passaram a ser discursivas. O poder transformador do jornalismo não está mais na materialidade das ações, mas sim na capacidade do agir discursivo que circula no mundo em forma de notícia.

Estas são as bases que justificam essa nossa decisão de estudar a questão da teoria de jornalismo para tentar entender o jornalismo no século XXI.

JORNALISMO, LINGUAGEM PERFORMATIVA

O jornalismo pode até estar em crise, mas é uma crise de crescimento. Ele se tornou mais importante porque, além de linguagem universal – e, na minha opinião, hoje é a linguagem mais importante do mundo –, o jornalismo é também o espaço público (abstrato, mas público) onde as coisas acontecem. Os acontecimentos são pensados, planejados, estratégica e taticamente organizados para circularem no mundo como notícia. Portanto, a notícia se evadiu das redações e se transformou no âmago dos acontecimentos. O acontecimento já nasce com a natureza de notícia.

Hoje os sujeitos jornalísticos não são só os jornalistas profissionais. Aquilo que a gente chamava de fontes são sujeitos geradores de conteúdos, são os sujeitos protagonistas dos conflitos. E temos também os públicos, os auditórios, que são os espaços da transformação. Portanto, o jornalismo é essencial para os reordenamentos sociais, para os reordenamentos culturais, para as relações de poder, enfim, é indispensável para a contínua reelaboração do presente.

Isso pode ter colocado a profissão em crise, mas a profissão, daqui a algum tempo, vai se expandir num mercado que terá crescido, porque é preciso haver jornalistas garantindo a qualidade da notícia desde a sua origem e fornecendo material argumentativo à discussão pública para a pós-notícia.

INOVAÇÃO NA PESQUISA

Há uma inovação neste projeto, que é utilizar as redes sociais como território de difusão do conhecimento. Evidentemente faremos a discussão acadêmica, mas vamos usar as redes sociais para difundir a discussão, a essência do conteúdo com o qual estamos trabalhando na pesquisa. Teremos um grupo permanente de discussão, no qual vamos juntar pessoas da academia e pessoas do mercado. Isto é, vamos fazer uma integração entre o saber acadêmico e o saber profissional.

Tentaremos usar alguns espaços de observação como laboratórios, por exemplo: vamos imaginar uma parceria com uma rede de televisão; nessa parceria, teríamos um laboratório de observação de como as coisas acontecem, como a notícia circula, de onde ela vem, para onde vai, quais são os desdobramentos que ela produz etc.

E vamos fazer discussões. Por exemplo, a palestra [do dia 30 de outubro na Cásper Líbero] faz parte já de uma estratégia de discutir as ideias, receber críticas e sugestões, receber divergências. O grupo vai se reunir com alguma periodicidade para avaliar os resultados da pesquisa, para irmos formatando uma teoria que, ao longo de algum tempo, deve estar pronta para ser transformada em livro a fim de oferecer argumentos novos ao ensino, à pesquisa, ao entendimento e à prática do jornalismo.

Certamente vamos organizar discussões com sujeitos sociais, por exemplo com ONGs. Porque todos esses sujeitos sociais hoje existem e agem porque são sujeitos discursivos. Eles usam o jornalismo como linguagem para agir e interagir no mundo. Então, temos sujeitos jornalísticos hoje não apenas nas redações: temos sujeitos jornalísticos na geração dos conteúdos e no espaço da socialização da discussão de seus efeitos. Os cidadãos e os sujeitos organizados (as ONGs e essa floresta imensa de entidades culturais, políticas, econômicas, etc.) todos eles têm identidade porque têm capacidade de expressar jornalisticamente.

O procedimento será rigorosamente científico, mas terá como novidade essa difusão e esse espalhamento das ideias pelas redes sociais, com alguns cuidados, como uma parceria com uma empresa jornalística especializada em redes sociais.

O objetivo é fazer um projeto consistente, que, ao mesmo em que vai resultar num texto final, seja objeto de discussão ampla. A ciência não pode ser produzida para ela própria, ela tem que ser produzida para a sociedade.

BASE TEÓRICA

A base da pesquisa é Darcy Ribeiro, que diz que os avanços da civilização se dão por revoluções tecnológicas. A cada revolução tecnológica, há novos elementos culturais, sociais etc. Estamos em uma fase em que a Revolução Industrial já é passado e, entretanto, as ideias que temos do jornalismo são ainda da Revolução Industrial. E o que nós queremos é introduzir na cultura jornalística as razões e as ideias – e as transformações que já estão acontecendo – da Revolução Digital. No fim, essa amarração, o inspirador do rumo da pesquisa, é o Darcy Ribeiro.

Mas temos também outras bases, pois já há reflexões importantes sobre a comunicação na civilização digital – por exemplo do Manuel Castells, que também vai nos servir de base. E as teorias de jornalismo que temos também. Eu já escrevi muito sobre o assunto, como, por exemplo, a Revolução das Fontes, teoria com a qual trabalho desde a década de 1980. Já fiz experiências profissionais para testar minhas ideias porque a última fase do jornalismo, desde 1970/80 para cá, é a fase da revolução das fontes: elas é que estão agendando o jornalismo, elas se apropriaram da notícia. A geração dos conteúdos está sendo feita por agentes que não estão nas redações, que estão no espaço social não mais como pessoas, mas como instituições organizadas e, portanto, que têm como marca principal de identidade um perfil discursivo. E o perfil discursivo se projeta em noticiário, em acontecimentos, em conteúdos socializados pelo jornalismo.

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