’INTERCOM 2020: GIOVANDRO FERREIRA, PRESIDENTE DA INTERCOM, FALA SOBRE O TEMA CENTRAL DO CONGRESSO

21 de abril de 2020

Atualizado em 28 de julho de 2020

“Um mundo e muitas vozes: da utopia à distopia?” é o tema central dos congressos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em 2020, que incluem o Encontro Inter-regiões Intercom, a ser realizado virtualmente em outubro, e o 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, de 1º a 10 de dezembro, também virtual.

O tema central orienta os debates em todos os âmbitos dos congressos, tendo seu ápice no Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, tradicionalmente realizado durante o congresso nacional. O tema de 2020 marca os 40 anos da obra “Um mundo, muitas vozes”, conhecida como Relatório MacBride. O documento foi publicado em 1980 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a partir do trabalho de uma comissão formada por pensadores de todo o mundo e presidida pelo irlandês e Nobel da Paz Seán MacBride.

O JORNAL INTERCOM conversou no início de março com o Giovandro Marcus Ferreira, presidente da Intercom e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da UFBA, onde também coordena o Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso e Mídia (CEPAD) e o Centro de Estudo em Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC). “Os 40 anos do Relatório MacBride são uma data comemorativa, mas também uma oportunidade de olharmos para o passado para pensar o futuro, abrindo caminhos para a discussão sobre as rupturas do mundo atual”, afirmou o professor Giovandro durante a entrevista, ressaltando a importância de que todo pesquisador do campo da Comunicação faça a leitura do relatório.

Confira os destaques da entrevista com o professor Giovandro Ferreira e comece a se preparar para o Intercom 2020.

O MUNDO EM 1980
“O Relatório MacBride é um documento muito importante. Pense no mundo de 40 anos atrás, marcado pela Guerra Fria, dividido em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos (classificação que colocava os capitalistas ricos em primeiro lugar, seguidos pelo mundo socialista e pelo capitalismo ‘subdesenvolvidos’). No Brasil e em vários outros países da América do Sul, estávamos sob regime militar. Em anos anteriores, houvera o movimento de libertação de países da África e da Ásia, a exemplo de Angola e Moçambique, em 1975.

Os países do então chamado Terceiro Mundo protestavam contra o fluxo dominante da notícia, oriundo sobretudo das nações do hemisfério norte e considerado um ataque à liberdade de informação. Nesse contexto, a comunicação foi colocada em discussão pela Unesco.”

RELATÓRIO MACBRIDE
“Instituída em 1977, a Comissão Internacional para Estudo dos Problemas da Comunicação era composta por 16 membros, incluindo o próprio Seán MacBride (que a presidiu), o jornalista e escritor colombiano Gabriel García Márquez, o diplomata chileno Juan Somavía e o francês Hubert Beuve-Méry (fundador do jornal Le Monde). Países dos ‘três mundos’ estavam representados por importantes pensadores de diversas áreas do saber e diferentes posições políticas.

A Comissão debateu a liberdade e os fluxos comunicacionais, fortemente influenciados pelos países do norte (ou centrais, como se colocava). Havia um grande desequilíbrio na comunicação, e isso dificultava a concretização da liberdade da informação. Depois de três anos de trabalho, o relatório ‘Um mundo, muitas vozes’ mostrava a necessidade de uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação (Nomic), em uma perspectiva utópica, mas que ajudou a pensar diretrizes para políticas de comunicação nos anos seguintes.

Nessa Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, colocava-se a importância da liberdade, da democracia e da solidariedade. Na época, perguntava-se como as nações mais sedimentadas poderiam ajudar as jovens nações, em uma relação de solidariedade – ou seja, entre as muitas vozes existentes no mundo.”

O MUNDO HOJE

“Agora, uma nova ordem da informação e da comunicação, que contribua para a democracia, a liberdade e a solidariedade, volta a ter pertinência. O mundo é um só, há uma só humanidade. Mas como a diversidade pode se expressar?

Uma preocupação atual, por exemplo, é que, com as ‘bolhas’ criadas pelos algoritmos, algumas investidas utópicas são importantes. Antes, você pegava um texto e dizia: ‘Vale a pena eu fazer um esforço para compreender este texto’. E esse esforço abria sua visão. Hoje, a perspectiva de esforço é totalmente descartada: você entra na bolha e não precisa se esforçar para comungar daquela opinião. Isso é dramático! Há um contrafluxo, uma visão de que não é preciso esforço; o que você mais investe é sua emoção. Isso é o mesmo que abdicar do raciocínio, da interpretação, de qualquer oportunidade de aprender e de repensar.

Outro exemplo: o desafio para a liberdade, para a democracia em especial, diante da doutrina GAFA. Quatro grandes empresas – Google, Apple, Facebook, Amazon – têm mais dados de países que os próprios governos e, por isso, passam a elaborar políticas, estabelecendo que, sendo ineficiente, talvez o Estado seja dispensável. É um momento muito crítico. Veja como é atual essa busca pela liberdade, pela democracia e pela solidariedade.

Então, o conceito de sustentabilidade não é ligado só à natureza, à ecologia; há também o aspecto da sustentabilidade cultural e política. A liberdade de expressão, articulada à consolidação da democracia, esbarra em todas essas questões.”

O INTERCOM 2020
“A motivação para o tema central do congresso é o marco histórico dos 40 anos do Relatório MacBride, olhando para o passado e, ao mesmo tempo, para o futuro. Daí o enunciado ‘Um mundo e muitas vozes: da utopia à distopia?’ fazer uma interrogação. Para onde nossas ‘muitas vozes’ vão nos levar?

Podemos pensar, por exemplo, em um Brasil e as vozes dos povos indígenas; a sociedade patriarcal e as vozes ligadas ao gênero... Tudo isso para buscarmos refletir, aproveitando esse momento tão importante de diálogo que é o congresso, para aprofundar temas tão pertinentes ao nosso cotidiano e à nossa realidade.

Diante dos desafios colocados hoje, é importante também pensar, em um congresso como o da Intercom, em como efetivar articulações entre quem trabalha com comunicação e outros atores da sociedade. Um tópico muito relevante, por exemplo, é a alfabetização digital, em uma perspectiva de educomunicação e como a academia pode contribuir para avanços nesse sentido. Será que, neste momento de rupturas na comunicação, não podemos pensar em possibilitar o lema de ‘um mundo e muitas vozes’? É o mesmo lema de 40 anos atrás, que agora se torna ainda mais atual. Como podemos salvaguardar, possibilitar diferentes visões de mundo?

Acho importante ressaltar como os temas dos congressos da Intercom têm avançado ano a ano para culminar nessa discussão. O tema central de 2019 – ‘Fluxos comunicacionais e a crise da democracia’ – e o de 2018 – ‘Desigualdades, gêneros e comunicação’ – já iam nesse mesmo sentido: a democracia pode estar sendo solapada, em vez de irrigada/fortificada, pela comunicação.

Então, os congressos têm feito essa articulação: ao mesmo tempo em que se tem a sensação de poder mudar o cenário (como fez o Relatório MacBride, com a proposta de uma nova ordem da comunicação), pode-se pensar que estamos entrando em um beco sem saída. Para onde vamos com os algoritmos dominando o mundo político e social? A comunicação pode ajudar a utopia, ou está nos levando para uma distopia?”

SALVADOR, UMA CIDADE DE MUITAS VOZES
“Rearticulando o tema central do congresso em ‘uma cidade e diferentes vozes’, podemos refletir sobre Salvador, uma capital com 82% da população constituída de afrodescendentes e que tem dado importância às culturas africanas, aos conhecimentos oriundos da África. Isso também será trazido à baila nessa discussão, resgatando o importante documento da Unesco, pois foi um avanço, em um mundo na bipolaridade da Guerra Fria, ter uma Comissão composta por pessoas de diferentes horizontes políticos que concluiu sobre a importância de repensar a ordem mundial da informação e da comunicação.

Isso me faz pensar no livro ‘A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami’ (Companhia das Letras), sobre a convivência de 30 anos entre o antropólogo francês Bruce Albert e o yanomami Davi Kopenawa. A obra mostra a visão que o yanomami tem de que a destruição da floresta é a destruição do mundo – a floresta é a maneira de os espíritos fazerem com que o céu não desabe sobre a terra. Se não buscarmos essas outras visões, teremos a ‘uberização’ da vida, sua precarização no sentido mais deslavado (e, aí, aproveito para também indicar o filme ‘Você não estava aqui’, dirigido por Ken Loach).

ESTUDE O RELATÓRIO MACBRIDE
Segundo Friedrich Nietzsche, estudar filosofia é estudar o itinerário da flecha que cada grupo de filósofos lançou às gerações seguintes. Quem está pensando a comunicação hoje deve conhecer a trilha da nossa ‘flecha’ – e, nessa trilha, o Relatório MacBride é um ponto fundamental.

Assim como a revolução de Guttenberg e a efetivação da comunicação de massa foram cruciais para a humanidade, hoje vivemos as primeiras batalhas no mundo marcado pela digitalização da sociedade. É um momento muito rico, muito frutífero e de muita crise. Citando Antonio Gramsci: o velho acaba logo, o novo demora em nascer; e, nesse momento entre o velho e o novo, o claro e o escuro, surgem os monstros.

Assim, o relatório de 40 anos atrás tem, sim, uma grande relevância para pensarmos a comunicação atual. Não para ficar só olhando a realidade pelo retrovisor, mas pensando como o retrovisor pode nos ajudar a olhar pelo parabrisa do cotidiano; olhando o presente e o futuro para oferecer nossa contribuição enquanto campo de saber.”

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